Azulejos provisórios

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Eu poderia ter olhado um pouco mais profundamente no espelho, respirado e ficado. Mas não. Eu saí dizendo que talvez na quinta-feira eu trouxesse um pouco de queijo ralado da padaria perto da minha casa, porque o seu acabou- é que eles ralam na hora e fica fresquinho. Mas eu sabia que não, eu não estaria ali na quinta, depois das 19h e esperando você entrar dizendo que o dia tinha sido tão cansativo que você só teve tempo de comer um sanduíche no almoço. E você também. A sua vizinha do terceiro andar não sabia. Mas a gente, sim. O seu porteiro que sempre me dizia se ia chover ou não, talvez nem imagine. Mas nós sabemos, ficou claro.

A desistência é tipo um elefante branco que senta na sala de estar e a gente finge que não está vendo. O fim é tipo um silêncio que se instala dentro de nós, mesmo quando estamos gesticulando largamente e rindo da piada do papagaio que foi preso dentro de uma caixa e saiu dando lição de moral no dono- e mesmo eu dizendo que aquilo não parecia uma piada, você ria, porque no final das contas a graça nunca está na lição de moral mesmo. Eu sempre achei que você notaria as desconexões que te rodeavam, tipo os azulejos rosas do seu banheiro e que você justificava para todo mundo dizendo: “é que aqui é alugado, né?”  Mesmo a gente sabendo que você gostava deles e que aquilo parecia uma piada sem graça, feito a do papagaio. Mas hoje, olhando de fora- de mim e de você– eu me sinto como se tivesse tido uma ordem de despejo auto-emitida. Tive que sair para não pagar um preço mais alto do que eu já estava investindo. E você sabe, eu sempre disse que investir demais em algo que não é permanente não fazia meu tipo. E você sabe, esse é exatamente o meu tipo. Você vivia dizendo “tenho que pagar o aluguel no dia 6” e, mesmo nunca estando lá no dia 6, eu lembrava e adorava o fato que no dia 7 você levava compota de laranja para sua mãe. Mas eu precisei sair uns dias antes, vai que eu arremato mais um mês e não consigo mais sair de dentro de você? Vai que aquele desenho na sua pia da cozinha vira uma tatuagem no meu antebraço e eu viro parte da sua mobília provisória?

Inclusive, me fala, tudo precisa ser sempre provisório?

Desde o teu ânimo momentâneo de descobrir um novo doce na padaria até um lapso de decisão que te fez abrir uma gaveta no seu armário e dizer para eu deixar umas coisinhas, afinal, “vai que você decide vir e não dá para passar em casa antes?”. Foi provisória a sua mão segurando a minha demoradamente antes de eu entrar no elevador que cheira antigo, levando todas as coisinhas e dando a desculpa de queijo ralado, porque eu não saberia me despedir com algo diferente disso? Eu não sei. Não tem resposta que justifique o fato de agora, aqui, olhando a agenda e sabendo que no dia 18 você tem exame cardiológico, eu só consiga pensar que talvez o meu nome saia no resultado. Eu sei, eu digo que não, mas sempre tive vontade de fazer parte das batidas do seu coração e eu sempre achei que em qualquer artéria eu me adaptaria e ficar morando ali por anos a fio, feito uma intrusa cardiovascular e que não precisaria pagar aluguel no começo do mês. E eu sei que quando eu dizia que poderia morar na rachadura da porta da sala, só pra te ver chegar e sair todos os dias, parecia loucura. Mas eu também sei que só o fato de você ouvir as minhas metáforas e concordar com a cabeça, dizendo que aquilo era vestígio de uma mente brilhante, era amor.

Então, me perdoe. Mas ficar ficou fora de questão.

Eu poderia ter olhado um pouco mais profundamente no espelho, respirado e ficado. Eu poderia ter avisado pelo menos o seu porteiro e reservado umas compotas para sua mãe. Eu poderia ter deixado uma peça de memória, uma meia para dar um fio de esperança na gaveta do armário. Eu poderia ter tirado uma foto dos azulejos rosas do seu banheiro. Mas era alugado, né? Era só por um tempo, né? Era provisório. Vai passar.

 

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Jornalista por profissão, cronista por opção e neta coruja. Escrevo porque preciso justificar as ansiedades que o tarja-preta não dá conta.

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