Fresta

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Quando a manhã se desponta na janela, passando por aquela fina fresta que não é coberta pela cortina, eu sinto que há você em algum espaço de mim que eu não controlo e nem sei direito onde fica. Mas te tem. Eu sinto nas primeiras respiradas da manhã os teus vestígios de comportamento expressos nos meus hábitos. Não me preocupo, afinal, já aceitei a diacronia da sua existência em mim. Quando eu tomo menos açúcar no café ou coloco no lembrete da agenda o nome do filme que eu nunca vi e você acha que eu vou gostar, quando eu penso em te desdobrar do meu subconsciente pra te ter mais palpável para os meus egoísmos, é como se eu pudesse respirar com teu pulmão, como se corresse em mim as tuas plaquetas, eu já não vejo diferença entre teu sorriso e meu lábio.

Eu preciso te amar sem tempo de espera, porque você me dá a sensação de infinito. Sem água e nem tempero. Na velocidade da luz e na calmaria do seu gesto que me toca. Amar, porque não fazê-lo desmerece a sua habilidade natural de ser onírico, mesmo quando é só terra e sal. Preciso te amar, porque nem mesmo a vida- sórdida e violenta- pode te tocar tão profundamente quanto a sinceridade das palavras que eu digo e do amor que eu professo quando te vejo cansado demais para responder coisas simples. Indeciso sobre as escolhas. Exaurido pelos seus “sim’s”. Por vezes, confesso, necessito não te amar por um tempo, pra poder ser um pouco mais de mim e não tão seus olhos, sua agenda, seu colarinho e o relógio no seu pulso ou o tempo relativo, que não me santifica e nem te dilata. Eu preciso te amar sem medo do retrocesso desse mesmo tempo, que me devolve todos os instantes para a versão limpa e anti-ética de você. E para as versões infantis. E principalmente para aquele menino que gosta de coisas pequenas que se podem levar no carro, mas não as compra.

Eu preciso te amar em vozes alheias, para não perder meus sons dentro do seu concerto particular. Você me orquestra, depois me devolve para os papéis da graduação e os compromissos cotidianos, depois me restitui crenças. Me desmorona. Me despedaça. Pra poder me encontrar feito luz no final de um corredor escuro. Como não amar teu ébrio olhar de quem quer ser amado sem limites, mas não pode se prender em calcanhar algum? Como não engessar frases prontas para me proteger da sua força e do seu vendaval que me arranca certezas, camisas e armaduras? Há dias que te amar me custa mais do que as horas de academia, mais do que o custo natural das coisas que simplesmente custam e agora eu não consigo listar porque estou te amando em cada linha- desse texto e do destino. Seria demais te pedir pra não querer reter dentro da minha boca o meu amor quando ele aparecer? Seria demais só ouvi-lo, senti-lo como se fosse algo natural seu, sem precisar colocar as longas explicações na mesa?

Porque no fundo, esse amor, esse aqui que me esgana e me dá voz, ele é naturalmente e inteiramente seu. Nasceu aqui, onde pouca coisa nasce de verdade ou não acaba perecendo pela minha ansiedade. Nasceu entre os cacos, se fez grande e parece um precipício, vezes, uma montanha imponente- tudo depende da perspectiva. Nasceu pra amar teus cílios, teus vazios, cobrir tua coluna. Nasceu, feito fruto que nasce pra ser admirado e saboreado raramente e que, vezes, nos dá sentido. Nasceu, pra morrer um dia nos teus braços, talvez na sua memória. Se faz em teorias, me acorda nas frestas descobertas do meu coração desprevenido. Te ama, mesmo quando não era isso que eu deveria ter dito.

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