Acordei cego e esse foi meu pior pesadelo

Ontem eu acordei e estava tudo completamente escuro. Eu sabia que isso não poderia estar acontecendo, pois mesmo no meio da madrugada a luz da noite se faz presente. Mas estava escuro, eu não via nada ao meu redor. Ouvi minha esposa levantar e dar bom dia ao meu cachorro. Esfreguei os olhos e continuava no breu total.
Refleti por alguns segundos e logo percebi que estava completamente cego. Quantas vezes na minha carreira como jornalista entrevistei pessoas que ficaram cegas assim, da noite para dia? Logo vi que tinha chegado a minha vez. Meu coração congelou, tentei lembrar rapidamente quais tinham sido as últimas coisas que eu havia observado, mas nada me veio na mente, pois não tinha feito questão de guardar nada comigo. Nenhuma cor, nenhuma textura, nada na memória, nada no presente, apenas o breu e o medo da nova vida que me aguardava.
Tentei gritar, mas minha voz não saía. Bati na porta desesperado e minha esposa, acostumada com minha maneira moleque de levar a vida riu e disse para o nosso cachorro que o pai dele estava louco, batendo em tudo. Eu tentava ir até ela, mas nem se quer no caminho da minha própria casa eu tinha prestado atenção. Levamos tudo tão no automático que não percebemos as belezas que temos nos corredores dos nossos apartamentos. Tentei gritar mais um pouco, bater nas coisas pra ver se ela vinha me acudir, e ouvia apenas o sorriso daquela que me amava tanto, ao ponto de saber que eu fazia piada com tudo.
Quando finalmente consegui chegar na porta, acordei assustado, com o coração acelerado, tudo aquilo foi um sonho. Quando abri os olhos olhei pela janela, e vi como é lindo a luz solar que entra para iluminar e aquecer meu quarto. O espelho que reflete a imagem da cama, como se registrasse a fotografia daquele momento. O rosa do nosso edredom e o azul do outro cobertor, tudo isso passou a se tornar tão precioso.

Fui ao banheiro e me olhei no espelho, joguei água gelada no rosto e vi as gotas escorrendo pela face. Admirei as formas, admirei a mim. Costumamos não dar importância para as coisas simples da vida, mas percebi que não importa quão simples seja o momento, mas ele é precioso apenas por existir.

Se eu perdesse a visão hoje, como tantas pessoas perdem todos os dias, será que teria aproveitado as cores? As formas? As texturas? As aparências? Será que tenho vivido meus dias observando os detalhes preciosos? Tudo isso passou a fazer sentido dentro de mim e se tem algo que eu lamento é saber que em pouco tempo esquecerei desse susto que passei, e voltarei a viver como se tudo por aqui fosse eterno.

Bem, pelo menos estou deixando registrado aqui, quem sabe se amanhã ou depois eu voltar para ler esse texto eu lembre da importância de aproveitar para admirar a beleza de tudo que tenho ao meu redor.

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Jornalista e apresentador de TV. Criador do Regra dos Terços.

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