Ser ou não ser

Todos meus arquétipos deitam comigo na cama, me acariciam os ombros e me fazem dormir sonos perturbados, incoerentes, cheios de sudoreses e saudosismos. Alguns, mais freudianos, erotizados com ares de Dionísio. Outros mais poéticos, shakespearianos natos e ritmados. Há dias que eu caio no abismo profundo do não saber o que desejar daqui cinco anos, há dias que eu simplesmente tenho certeza do que eu não quero agora. E só o agora segura meus pés aqui, nessa linha tênue entre a loucura e um tanto de orgulho de não ser mil coisas que eu poderia ter sido. E só o agora me lembra das outras mil coisas que eu poderia ser, mas não sou.

Sinto azias, o tempo todo, só de pensar em não conseguir terminar o que já comecei- inclusive esse texto. Sinto medo, o tempo todo, de virar uma esquina e meus demônios me engolirem em plena luz do dia- alguns deles ainda estão vivos. Sente-se agora, vamos olhar mais fundo, diz a terapia. Levante-se agora, pare de olhar para trás, dizem os bons conselhos gratuitos. Se houvesse uma só maneira de equilibrar essas duas coisas, eu faria. Já cheguei na conclusão abissal de que somos feitos de securas veladas diante das ironias do tempo. Hoje estamos todos calorosos nos olhando nos olhos e desejando envelhecer juntos com se isso fosse possível, mas amanhã seremos apenas a lembrança amarelada num álbum de fotografias perdido. O mundo é seco e hipócrita, mas a gente encontra no meio disso motivos para acordar de manhã e tentar ser um pouco menos de cada coisa para ser um pouco mais de coisa alguma. Mesmo sendo tão honesta com minhas ausências de virtudes, há feridas que eu finjo que já não sangram para poder alimentá-las como um animal escondido. São elas que me lembram que só se pode seguir quando se resolve as contas com o passado. Porém, não resolver nada com o passado é minha forma sádica de me sentir viva. Nem a terapia e nem os conselhos gratuitos me ajudaram. Logo partirei para tratamentos mais duros. Ou mais leves. Ou desisto. O tempo, dono de todas as ironias, resolverá.

Volto para minha cama, abro minha cortina e deixo o perigo do vento ou dos seres humanos ou dos espíritos e animais selvagens passarem o mais próximo que puderem. No máximo, ficarei doente- mais ainda. Não me coloco mais em balanças morais por amar tanto e depois sentir tanto por não sentir mais nada. Há coisas em mim que soam como vidro quebrado, outras como construção sendo erguida. O caos e calmaria caminham lado a lado comigo e conversam como rivais polidos. Cada arquétipo segurando uma mão e outros tantos percorrendo meu corpo enquanto procuro uma posição indolor para meu pescoço machucado. Há pequenos vícios que a gente nunca vai deixar para trás, um deles é ser tempestade. Dionísio e Shakespeare se olham em silêncio na beirada da cama e velam meu sono inquieto. Não ousam me ironizar ou me incomodar. Afinal, “ser ou não ser”, não é mais uma questão.

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Jornalista por profissão, cronista por opção e neta coruja. Escrevo porque preciso justificar as ansiedades que o tarja-preta não dá conta.

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