Tempestade no mar interno

É difícil se sentir em paz. Encontrar o seu lugar no mundo. Olhar pra dentro e ver a si mesmo de maneira a contentar-se com a imagem que ali está. Eu sei que é, te entendo. A mente muitas vezes trabalha a mil por hora, não permitindo que encontremos a paz, a calmaria que nossa alma tanto clama. Tô sabendo que é foda. Mas se tem algo que também sei, é que encontrar em si a base para respirar tranquilo e ficar em paz com a imagem que vê em frente ao reflexo interno da alma é possível.

Falar que não importam as dificuldades que você encontra no caminho e nem mesmo as mancadas que você dá diante da inexistência da perfeição, seria uma falácia digna de afogamento. Mas mesmo diante dos desgostos da mente e do amargor do peito, é possível encontrar o seu lugar em si.

Uma mente atormentada pelo não ser, não fazer e não saber, não impede, necessariamente, o coração de amar o eu interior, mesmo quando tudo parece tão injusto. É possível descobrir em si, em meio a tanto lodo, as belezas de uma vida desgraçada. Não, você não leu errado, até mesmo uma vida desgraçada tem lá seus motivos de regozijo.

Imagine um oceano em dia de tempestade. Não é porque o balancê das águas a tudo modifica, as vidas marinhas atormenta e aos olhos dos homens não é agradável, que o oceano deixa de ser um lugar cheio de vida, belezas e lamentações. Uma alma desgostosa é como esse oceano, por mais confuso que possa parecer o momento, em alguma hora do dia, mês ou quiçá do ano, as coisas tendem a voltar ao seu lugar, mesmo que esse não seja o mesmo do momento da partida.

Os peixes se adaptam aos maus tempos dessas águas tão revoltas, os olhos dos homens em algum momento, mesmo que distante, hão de reconhecer que ali, em meio a tamanha tormenta, existe uma imensidão de belezas escondidas. Pode demorar, pode não ser como planejávamos, mas independente de como estamos agora, precisamos nos lembrar que uma hora todo o dissabor da tempestade irá se dissolver e tudo voltará a ser, não como antes, mas tão belo quanto é possível que o seja.

Faz tempo que eu, por exemplo, não consigo sentar e me despir aqui nessas linhas diante de vocês. Faz cinco anos que vivo assim, venho e me exponho, feliz ou não com a imagem que vejo no reflexo das águas internas, e mesmo diante de uma pausa ou outra nas minhas colocações, meus textos continuam fluindo e mesmo que diferentes daqueles que escrevia outrora, mesmo que não tão profundos ou poéticos como já fui, retorno com outras belezas, outras verdades e outras confusões.

Hoje é um dia em que a tempestade passou, sei que ela voltará e quando isso acontecer pretendo poder sentar-me aqui nessa rodinha de amigos, olhar nos olhos do eu do passado e ter em mente que um dia ela passará novamente e voltarei a encontrar a paz, mesmo com as discrepâncias diante do que já fui. É possível navegar numa vida cheia de tempestades, mas não é fácil.

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