50 tons de quarentena

Acordo.

Lavo o rosto, escovo os dentes e decido apenas prender o cabelo, porque eu estou com preguiça demais de resolvê-lo. Abro meus e-mails, enquanto tomo café. Respondo algumas coisas, ignoro outras, faço o mesmo com algumas mensagens de WhatsApp. Decido abrir as redes sociais, e é aqui que a coisa começa a ficar interessante.

Receitinha da quarentena: você vai precisar de sete batatas jamaicanas e um quilo de sal da Malásia, o resto dos ingredientes todos veganos, óbvio. Mistura tudo numa panela francesa que não vai óleo, mas se for, você usa o de semente de frutas silvestres do Oceano Pacífico, porque a gente não quer ter colesterol nesse tempo de isolamento, né? Fácil, até para quem não sabe cozinhar.

Mordo mais um pedaço da pizza de ontem que está fria, tomo mais um gole de café, coloco duas colheres de açúcar refinado, e continuo a descer o feed.

Exercício para fazer em casa: você faz duzentas sessões de agachamento segurando um saco de arroz. Tem tudo para dar certo. Você alonga até sentir seu ciático ir para o lugar e depois come meio pacote de lichia com leite (de soja!).

Lembro que eu deveria realmente ter me alongado para manter meu ciático em dia, mas eu prefiro só tomar um ibuprofeno e seguir em frente como se nada estivesse acontecendo. Desço o feed mais um pouco.

Evolução espiritual: o meu coleguinha que sempre enfiou o dedo na cara da mãe e das namoradas, que considera mulher uma “fraquejada” e que vive dizendo que a gente deve aprender a se portar melhor para não parecer “fácil”, falando em como a importância da convivência está sendo mais clara depois desse isolamento. Virou budista, está meditando todas as manhãs e tomando vitamina D da janela do quarto- como se ele tomasse sol em dias comuns, por acaso. A moça que nunca fez questão de dar bom-dia para os pais, agora os abraça em uma foto cheia de filtros, tira uma selfie toda maquiada, coloca uma legenda bíblica e ganha novos likes para se sentir menos vazia.

Olho para minha avó ao meu lado e me sinto um pouco mais leve: essa coisa de conviver a gente sempre fez com maestria. Mas lembro que me sinto muito mais feliz de lembrar que agora a gente tem a desculpa perfeita para não ver os parentes bolsonaristas. Fazer o quê? Nobre, pero no mucho.

Sigo vendo a lista das modas quarenteners. São receitas maravilhosas, exercícios online que nos tiram a culpa de só estarmos comendo o dia inteiro sem lembrar de fazer uma flexão, são lições de vida epifânicas, morais intocáveis de pessoas que a gente sabe que além de sonegar imposto, considera bandido bom, bandido morto. São idealistas de conduta duvidosa, falando sobre empatia e solidariedade. Nasceu feminista até do pé de couve, mas a gente sabe que nunca leu uma Simone de Beauvoir. Eu mal penteio os cabelos desde que comecei a me isolar. Já comecei doze livros e parei na metade de todos. Eu voltei para os remédios de ansiedade, porque quando eu vou ao mercado eu tenho medo de matar minha avó ao entrar em casa e estou comendo sem um pingo de responsabilidade. Só carboidrato, desde que eu acordo até antes de dormir. Eu estou dormindo abraçada em um pão. Eu só lembrei de fazer as unhas esses dias, porque uma delas quebrou dentro do meu prato do almoço. Eu estou bebendo mais do que o Bukowiski. Não consigo cumprir a promessa de fazer uma faxina no meu escritório. Mal estudo, mal leio, mal consigo dar conta do trabalho.

Mas, o mundo ao meu redor evoluiu. Todo mundo virou Buda, encontrou Jesus e agora se alonga todas as manhãs. Todos estão fazendo artesanato, pintando quadros, tomando bons vinhos e aprenderam a fazer massa caseira igualzinho aquelas da Itália. Estou impressionada, mas sigo fedendo álcool gel e odiando a humanidade. Até o final dessa pandemia, terei 18kg à mais e um cabelo mal cortado. Tem tudo para dar certo, nós iremos ser pessoas melhores e mais higienizadas depois dessa fase e o mundo vai ficar bem. Eu acredito em tudo isso, porque eu vi um tutorial no Youtube e ele parecia bem editado.

Sigamos.

 

2 comentários sobre “50 tons de quarentena

  1. Grande Eline! Sempre à frente!!! Muito bom. Mas não acredito que a dinâmica colega de turma esteja vivendo assim kkkkk ânimo. Não tem problema que dure a vida inteira. Tudo logo passa. Só os quilos ficam kkklk

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