Inquisição.com

A tia do WhatsApp diz que a pandemia atual é coisa do demônio. Praga de Deus. Lembra do Egito? Isso mesmo, agora é com o mundo inteiro. O presidente diz que a ciência está errada e, quem estiver com ela, está contra a economia do país. Ele demite quem lhe desagrada e começa uma guerra contra a imprensa, colocando os comunicadores como os grandes vilões da sociedade, que vêm disseminando o pavor e o caos. Se no New York Times dizia o contrário, no Facebook do pastor dizia diferente, e eu sou mais ele, ein? O padre disse que tem que ir à missa, sim! Tá pensando que o céu se conquista em casa? Não mesmo. Tem gente muito mais capacitada na minha paróquia, na minha igreja, no meu bairro e no bar, do que esse zé povinho que acha que doutorados e PHD’s em saúde, dão mais crédito para esse papo de que o distanciamento social nos ajudará a passar por essa crise. É só a fé. Só isso.

Quando você contesta os parentes -e o presidente que esses mesmos parentes amam- com fontes mais confiáveis do que o Seu Zé da farmácia, você é comunista, vai morar na Venezuela, cuida da sua vida, Deus vai te castigar. Está difícil. Comunicar virou um ato contra a paz mundial. O jornalismo virou o aluno chato que levanta a mão e corrige os erros da sala e do professor, que provoca a auto crítica e acaba incomodando a ponto de todo mundo virar os olhos quando ele chega. As notícias com credibilidade, são assuntos que se evitam no churrasquinho, que ninguém coloca em pauta porque tem coisas que não se discutem. A mesma sociedade que diz que quer ser livre, é aquela que ouve o que não quer e fica chateada, feito moleque mimado que não ganhou a resposta dos pais que tanto queria. Hoje, dizer a verdade, é falta de educação ou, na maioria das vezes, “ignorância da sua parte”. Porque, é lógico, que a culpa de todos os males é dos maçons, que a ciência vai contra o criacionismo e que a sua irmã que não leu um livro de verdade na vida, tem mais razão do que os economistas europeus. Lógico.

“Noticiar é tanto um privilégio quanto uma responsabilidade. Não é explorável.”  Essa frase é do Anthony Hopkins, no filme Encontro Marcado. Depois de tantos passos históricos em direção ao desenvolvimento crítico, depois do século XIV com a Inquisição Medieval, voltamos aos novos julgamentos ferozes de pessoas que se sentem agraciadas a ponto de serem juízes de valor. A mídia que decidiu não se vender e nem venerar ditadores, incomoda. Nós, que vemos a realidade da nossa democracia que está respirando por aparelhos, somos os ingratos. Ou você está de um lado ou está do outro. Não se fala mais em equilíbrios. Agora, o termo “heresia” ressurgiu, com novos métodos de tortura contra ele. São demissões, imagens jogadas nos esgotos das redes sociais, comentários ácidos sobre nossas famílias, sobre nossos amores. Apesar de termos o maior líder religioso do mundo aberto ao desenvolvimento científico, temos pessoas agarradas aos cabelos de Eva e seu pecado original. Enquanto vemos potências se curvando às necessidades de novos modelos de vida em prol da saúde pública, as pessoas ainda estão fiéis nas correntes dos grupos e dos feeds, como se ouvir o que você quer fosse amenizar o caos ao seu redor. O jornalismo, esse que a gente faz à custa de sangue e muita busca, muito compromisso, muito estudo, muito nado contra a corrente, esse aí que não agrada os fanáticos (dos dois lados), virou um ato terrorista contra a zona de conforto que é a ignorância. Agora, dizer a verdade, deve vir depois de um pedido de desculpas.

A verdade é que os julgamentos ainda são os mesmos, mas as nossas fogueiras, agora, são outras.

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