Tirando pedestais

“Não gostaria de estar no lugar dos que se julgam vencedores, a história será implacável com eles”, essa frase é de Dilma Rousseff em um pronunciamento. Não poderia fazer mais sentido do que agora. Vivemos uma geração que repete o erro de nossos ancestrais, de colocar em pedestais o ser mais frágil do planeta, que é o homem. Endeusar qualquer pessoa é um erro fatal e que destrói não só o campo político, mas a história pessoal de cada um. Destruímos relações, por colocar expectativas demais em pessoas. Pessoas. Carne que sangra, ossos que quebram. Fazemos isso nas nossas micro relações e isso se reflete nas escolhas maiores.

O cenário político do país ensina muito mais sobre amar, do que sobre votos, golpes, pedaladas e corrupção. Preste atenção.

É quase um clássico essa paixão exacerbada em figuras que representam força e poder. Fazemos isso com nossos pais, incorruptíveis. Fazemos com nossas mães, imaculadas aos nossos olhos. Com os filhos, que nunca irão errar. Com nossos parceiros, que jamais irão quebrar nossos corações. Com os salvadores da pátria, que são messias eleitos por Deus e democraticamente. Entregamos nossas esperanças nessas pessoas, vendemos a alma, colocamos a mão no fogo e a consequência é sempre um nariz quebrado e frustração. Que erro, que pecado. A violência da expectativa é um fardo que não desejo ao meu pior inimigo. Porque, ao mesmo tempo que violenta o endeusado, retira dos adoradores a identidade, não os coloca de frente de uma verdade limpa e tampouco ajuda na evolução. Colocamos capas em heróis que têm como kriptonita um vilão perigoso: o ego.

E assim, seguimos vendo esses ídolos, um a um, caindo como uma cadeia de dominó. Vai se desfazendo o véu da adoração e descobrimos que aqueles que amamos de maneira tão profunda, no fundo, não podiam salvar nossas vidas. Os nossos cavalos brancos, são só cavalos no fim do dia. Não representam nada além de contos que nos liam antes de dormir. Os incorruptíveis podem trair, podem ferir, magoar profundamente. As imaculadas, podem revelar feridas e cicatrizes enormes, tão grandes, que poderiam ficar irreconhecíveis. No fim, nossos filhos escolhem o próprio caminho e a gente torce que eles sejam felizes, apenas. Os amores da vida toda, podem acabar no terceiro ano, quando você descobre que a sua felicidade não pode ser embalada e colocada na mão de outrem. Os messias, se revelam apenas pessoas dentro de uma bolha de utopias bem discursadas. A gente vai crescendo, tanto como pessoa, quanto como nação. Vai amando, dia após dia, de maneira errônea até acertar. Vai tirando pedestais, para descobrir que é preciso estar nivelado para olhar no olho. Aprende a perdoar, por fim.

Por fim, vemos que se os heróis de Cazuza morreram de overdose, os nossos estão morrendo pelas próprias escolhas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s