Bolsa de valores afetivos

Peguei todas as minhas economias, coloquei-as sobre a mesa e disse sem dó, sem piedade e sem o mínimo de responsabilidade sobre meu possível prejuízo: está aqui. Estou aqui. Eu havia economizado por anos todo aquele sentimento. Guardei na poupança, até que criasse juros. Juros esses que eram bons. Virou amor próprio, aprendi a ler meus sinais, respeitar meus tempos. Eu perdi o medo da famosa insuficiência, lidei com meus históricos de abandonos, tirei minhas amarras e comecei a lidar com verdades e sinceridade, custasse o que custasse. Saí de onde não me sentia mais em casa. Cortei laços. Quebrei alguns tabus. Compreendi que liberdade não é nada sem equilíbrio do respeito- consigo e com os outros. Eu me vi maior, mais forte. Aí eu voltei para casa. Refiz meus laços. Reencontrei minhas bases. Aprendi que voltar também constrói, a gente só precisa reconhecer a hora certa. E que a vida é sobre reconhecer a nossa essência, eu atendi os chamados das minhas raízes e voltei, sem medo, mas com a certeza de que o passado me construiu, mas não me define. E tudo bem. Tem uma balança da vida só para esse tipo de assunto.

E aí, um dia, eu me senti pronta. Eu não quis mais provar para todo mundo, que eu não precisava provar nada para ninguém.

Eu abri o coração. Me preparei para quando eu visse um bom negócio, alguém que entrasse pela porta sem a intenção egoísta de pegar apenas um montante do que eu tinha, levar e me deixar aos cacos, eu iria abrir as mãos. Não iria ser avarenta com o que eu sentia, eu amaria e pronto. Porque eu tinha certeza de que essas coisas todas que eu plantei aqui dentro, poderiam ser frutos bons na vida de outra pessoa. E não pediria troco, não. Eu ia apostar alto, eu iria só fechar os olhos e colocar as fichas na mesa e deixar a roleta russa da vida me mostrar o que ia ser. Porque, agora, não dava para errar. Eu já quebrei quase todos os dentes nessa coisa de amar, eu arrebentei os joelhos, eu implorei para Deus e para os santos que eles me vissem e me mostrassem um porto seguro, porque ninguém consegue passar a vida voando sem nunca pousar. Eu já estava cansada de voar voar voar voar voar, cheia de sentimento como bagagem, sem nunca poder descansar. Esse meu amor maratonista, de mesinha de boteco, queria só dividir a porção do torresmo e falar mal da política nacional, em par. Esse meu coração sempre ansioso, não queria mais se preocupar com tantos amanhãs que nem existem. Eu só queria um bom investimento, uma oportunidade de colocar em prática tudo o que eu achava que tinha aprendido e dormir num peito tranquilo.

Mas aí, você estava ali, com teu colo com jeito de brisa e cheiro de amaciante, sem vontade de ver nada disso. Cê tinha o teu próprio caminho acontecendo e ele te levava para o lado oposto de mim. Como assim? Tinha tudo para dar certo. Mas não deu. Tinha tudo para ser a gente. Mas não foi.

E eu achei que você ia saber o que fazer com tanta economia bem feita, geralmente você tem resposta para tudo. Mas você não tirou as mãos dos bolsos, sabe lá por qual motivo. Você estava ocupado agora, não dava tempo, não tinha espaço, era coisa demais para as suas coisas demais que você já tem na sua vida. Uma vida inteira de si mesmo não tem espaço para novos investimentos. E eu fui tentando depositar aos pouquinhos, moedinha por moedinha, na tentativa de que você não percebesse. Mas as moedinhas não foram suficientes, e mesmo insuficientes, foram demais. E aí, eu chutei o balde, eu achei que falando mais alto você ouviria. Mas você precisava de mais alguma coisa que eu não tinha. Ou eu tinha alguma coisa que você não podia encarar. Eu procurei nas economias, eu vasculhei cada um dos meus montantes, mas nada. Não tinha nada. Nem meus livros, nem meus bons filmes, nem a minha mania de ser a primeira da classe. Nada te serviu de argumento. Você continuou indo embora, com as suas verdades tão sólidas e essa mania de erguer uma sobrancelha para mostrar que tem razão, e eu continuei acenando. E todo meu amor virou quase nada. E todo meu sentimento foi perdendo valor de mercado. E a vida foi criando distanciamentos- sociais e afetivos. E você achou a saída certa. E eu fiquei com as mãos abertas. E agora, parece que passou tempo demais para eu conseguir ter forças e coragem para investir de novo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s