O fabuloso destino de Dona Certeza

Dona Certeza se levantou pela manhã, calçou seus chinelos de pano e fez seu ritual matinal de beleza: lavou o rosto, escovou a dentadura, penteou os cabelos e colocou os óculos. Munida de certeza absoluta do que iria vestir, colocou seu vestido de domingo, tomou seu café da manhã, os onze comprimidos para suas doenças que iam de diabetes até depressão, e foi à missa. Sentou-se no primeiro banco, na certeza de que o Padre José daria um aceno fraterno para ela do altar e depois viria cumprimentá-la perguntando sobre sua saúde. Ela esperava essa pergunta a semana inteira, pois era o momento de repetir o discurso já ensaiado mentalmente de que ela tinha certeza de que não passaria do Natal desse ano. Padre José, como sempre, dizia que seguia rezando por ela- ainda que não o fizesse- e que era a oração que a mantinha viva- ainda que o sonho dele fosse rezar apenas uma oração pela velha: as exéquias.

Depois de cumprir a obrigação de todo cidadão de bem, que é ir á missa, mesmo que sem rezar direito, Dona Certeza voltou para casa. Começou os afazeres do almoço, sempre caprichado, ainda que soubesse que os filhos não viriam. É que, sabe como é, o Pedro Luiz assumiu que é gay, e ela, como mãe, disse com certeza que ele iria direto para o inferno, sem purgatório. Além de tudo, adotou os gêmeos com o tal do “marido” dele. Imagina só, vai ser uma coisa horrível essa história. Sentia falta das crianças, pois, apesar de adotados, eram uma gracinha. Só que para o céu nenhum deles iria, que pena. Mas ela rezava pelo filho. E era reza sincera, ela pedia todos os dias para Pedro Luiz achar uma mulher boa que virasse a cabeça dele para o lado direito, já que essas coisas de veado eram coisas do avesso, do demônio, das coisas que não prestavam. O Gustavinho, apesar de não ser gay, não viria também. É que, sabe como é, a mulher dele não gostava de Dona Certeza, porque ela, como mãe, disse com certeza que aquilo ali não era mulher para seu filho. Onde já se viu mulher trabalhar o dia inteiro e ainda por cima viajar, sozinha, dizendo que é coisa do trabalho? Só Deus para manter aquele casamento vivo e os chifres que Gustavinho carregava, porque, com certeza aquilo cheirava chifre. E ainda por cima dizem que não querem ter filhos. Pense só! Casal que não tem filho, não cumpre sua obrigação de casal e só tem um lugar no universo para eles: inferno. Mas esses acho que até passam no purgatório antes, vai que dá uma chance e sobem para o andar de cima? Enfim, não vinham na casa dela há seis meses.

Entre uma certeza e outra de que os filhos é que estavam errados, pensou no Geraldo, seu ex-marido. Por culpa dele, Dona certeza não podia comungar na missa porque era mulher desquitada. Mas, Geraldo era homem bom, isso ela tinha certeza. Apesar de não ser coisa de homem, ele cozinhava. Era trabalhador e ainda fazia aquela massagem no pé de Dona Certeza, que começava devagarinho e terminava no quarto. Dessas massagens vieram os dois filhos. Apesar de ele sempre questionar as coisas, vindo com aquele irritante “será?” para o lado dela, Dona Certeza amava o homem. Odiava que ele era capaz de mudar de ideia, de pedir desculpas, de fazer diferente e de reconstruir a vida a partir dos erros. Odiava mais ainda que Geraldo fazia amizade com todo mundo, não tinha critério, vivia cheio de parente e amigo em volta. Geraldo tinha mania de dizer que Dona Certeza não abria espaço para sentimentos porque vivia de olhos muito abertos e, para sentir, a gente precisa se entregar às cegas algumas vezes e aceitar que cada um tem um jeito, que a dúvida mora em todas as coisas. Mas, é que para ela, que sempre estava certa, isso parecia até absurdo. Mas, apesar disso, sentia falta das tais dúvidas de Geraldo. Só que daí, sabe como é, teve aquele dia que ele demorou demais para voltar do trabalho e Dona Certeza sabia, com certeza, que ele tinha outra. Só podia ser. Imagina só, se Geraldo ia demorar três horas para chegar do trabalho que era só quinze minutos de casa? Ficou uma fera. Quando ele chegou, as roupas estavam todas jogadas no quintal. Em apenas três horas, Dona Certeza jogara não só as coisas de Geraldo para fora, mas também 35 anos de casamento e o mais triste de tudo: o amor. Ainda que Geraldo tenha mostrado o pacote de viagem para o Nordeste que ele estava comprando na agência e por isso demorou para voltar, não foi suficiente. Ela tinha certeza absoluta de que ele tinha comprado aquela porcaria para esconder a amante. Não quis conversar, não quis ouvir, não quis saber. Ela tinha certeza e ponto. Geraldo, cansado demais de se tentar fazer entender, saiu de casa deixando apenas uma frase para trás: certezas demais sufocam o amor.

Assim, Dona Certeza passava mais um dia de domingo. Sozinha, abençoada pelo Padre José (ao menos era o que ela acreditava) e com a certeza de que assim era melhor. Sozinha, não. Com Deus, né? Ainda que ela não conhecesse muito bem esse Deus, era melhor acreditar, porque não queria encontrar a família inteira lá onde ela sabe que eles estarão depois de morrer: no inferno. Almoçou sua comida que era, com certeza, a melhor do mundo. Olhou para sua casa que era, com certeza, a mais perfeita. Olhou-se no espelho orgulhosa de nunca ter mudado de opiniões, de nunca ter trocado as rotas da vida, de nunca ter reavaliado seus valores, de nunca ter ouvido ninguém que pensasse diferente, de nunca ter se aberto ao novo, de nunca ter escolhido novos caminhos. Orgulhou-se, principalmente, de sempre estar cheia de razão. Sentou-se em sua cadeira de balanço no quintal, tomando seu suco de maracujá feito com os melhores maracujás da feira que, com certeza, foram escolhidos por ela e por isso eram os melhores. Respirou fundo, sorriu e teve certeza de que era feliz. Ainda que não falasse com os filhos, ainda que soubesse que Geraldo estava feliz na Índia com a nova esposa que amava viajar, ainda que soubesse que o povo da feira onde ela comprou os maracujás viravam os olhos porque “lá vinha ela”, ainda que não sentisse que era amada há anos, ainda que vivesse sufocada de remédios para depressão, ainda que fosse a mulher mais sozinha da rua e, claro, ainda que no fundo do peito uma voz baixinha repetisse uma velha pergunta conhecida: será?

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s