Sobre mentiras e verdades duvidosas

Esse é um texto sobre outras pessoas.

Não é sobre você, ou sobre mim, nem alguém que conhecemos. É sobre tudo o que há ao redor e nós fingimos que não nos toca. É sobre a necessidade alheia que, no fundo, também nos pertence. É sobre a grama verde do vizinho, sobre o teto de vidro dos outros, é sobre os calos alheios. Não é sobre a sua cicatriz e a sua dor. Não. É sobre os outrem que cruzam nossa vida e fingimos não ver. É sobre quem pede sempre a mesma coisa, tem uma rotina metódica e triste, cumpre sempre os mesmos horários e não muda de opinião há 15 anos, mas cita Buda e os ciclos do universo para parecer menos patético, mesmo sendo clichê. É sobre quem finge que nos entende, mas no fundo, não se importa. Mas também é sobre aqueles que nos transpassam de maneira tão profunda, que mesmo depois de terem ido embora, ainda é possível reconhecer seus vestígios em nossas digitais. É sobre quem nos despertou um amor tão grande, genuíno e violento, que nos mudou para sempre. É sobre quem nos olha dentro dos olhos e toca nossa alma, mas nos respeita. É sobre quem nos vê de manhã, com hálito e humanidades neandertais, mas ainda assim nos oferece um café. Sobre quem nos abre a porta, todas as portas. Sobre quem divide, multiplica, soma e até subtrai, mas fecha a conta em par. Ou em triplos. Ou seja lá quantas pessoas você precise para não desmoronar. Ah, esse texto é sobre quem desmorona também, não pode faltar.

Esse texto é um caminho.

É sobre seguir. Sobre parar. Sobre não ter medo de voltar. É sobre correr e correr, sem nunca saber onde chegar, mas mesmo assim se manter em movimento. Essas são palavras sobre uma avenida caótica que vezes derruba, vezes motiva e muitas vezes parece só um amontoado de perguntas enfileiradas. É sobre as vezes que você olhou mais de perto e descobriu que a vida faz sentido nos detalhes que passam despercebidos porque estamos em alta velocidade. É sobre aqueles que acabaram de se apaixonar, mas não têm tempo de viver isso com intensidade. É sobre o amor que morre em tetos divididos por corações solitários, tão sozinhos, que nem perceberam o beijo dado de maneira mecânica. Esse texto é sobre quando a gente se machuca a ponto de não conseguir perdoar, mas precisa erguer os olhos e continuar em frente, porque não é justo perdermos tanto tempo remoendo feridas. É sobre o passado que nos acorda em madrugadas e precisa ser tratado com tarjas pretas e vícios, porque o mundo não espera que olhemos atentamente para nós mesmos e, em nosso tempo natural, nos encontremos de verdade. É sobre um futuro que se estende em um horizonte iluminado, mas que dá medo. É sobre o tempo. Com certeza sobre o tempo. Não poderia ser outra coisa, afinal.

Esse texto é sobre a vida.

É sobre quando a gente se vê disperso diante da rotina e só quer oito horas de sono e um copo de água. É sobre quando a gente tem tudo sob controle e morre. É sobre ter que se despedir de quem amamos, porque quem amamos precisa ir embora. É sobre, mais do que tudo, o luto. É sobre ter que cumprimentar pessoas que a gente odeia para não perder o fio da meada. É sobre falar de resiliência, enquanto sente mágoa perante a própria trajetória. É sobre a hipocrisia que a gente precisa praticar para não ser morto pelas verdades do mundo e, pior ainda, pelas próprias verdades. É sobre viver e viver e viver e viver e se sentir morrendo cotidianamente. É sobre estar perto de coisas pelas quais você sonhou uma vida inteira e não poder tocar. É sobre ter certeza de que está onde deveria estar, mas não se sentir em casa. É sobre procurar sentido e só encontrar labirintos. É sobre imaginar as versões do que poderia ser, se não fôssemos tão estúpidos. É sobre um sopro que leva essa preciosidade embora e os que ficam precisam entender, atônitos, como essa tal vida é tão rara e ao mesmo tempo tão efêmera. É sobre os acidentes de percurso que nos devolvem o ar ou tiram o chão. É sobre tudo aquilo que se perdeu e nos atormenta revestindo-se de demônios. É sobre estar sempre no item anterior: o caminho. Correr, correr, correr e nunca chegar, sempre contra o tempo.

Esse texto é sobre a angústia.

Sobre o medo de não saber o que está fazendo, mesmo fazendo tudo aquilo que você acha que deve. É sobre ter que suportar as renúncias que fazemos, conscientes do remorso. É sobre envelhecer e perceber que está só. É sobre deitar a cabeça no travesseiro e sentir que poderia ter segurado mais um pouco aquele abraço. É sobre não ter dito que amava enquanto ainda dava tempo. É sobre fingir que não sente, quando no fundo você sente até demais. É sobre segurar o ar debaixo d’água e, por um segundo, não fazer tanta questão de emergir. É sobre suicídio. É sobre matar cotidianamente dentro de si as suas maiores verdades. É sobre aniquilar quem você é, para priorizar o outro. É sobre chorar escondido. Ou chorar em público. Chorar no banho. Chorar no trânsito. É sobre chorar tudo que podia e ainda ter lágrimas suficientes para chorar tudo de novo. É sobre rir por desespero. Rir por solidariedade. Rir por disfarce. Rir porque não há mais nada a ser feito. É sobre gatilhos emocionais. Sobre tiros no escuro que te ferem e sangram, mas não te permitem explicar verbalmente. É sobre os próprios venenos que não têm antídotos. É sobre as notas de um piano que fica sozinho tocando tristezas e você sente que perdeu tudo o que poderia ter perdido, mas agora é tarde demais para pensar sobre isso. É cedo demais para pensar sobre isso. A gente nunca sabe onde está, afinal.

Esse texto é sobre o mundo.

Esse texto é sobre tudo.

Esse texto é sobre todos.

Menos sobre você. Menos sobre mim. Não. Esse texto é sobre outras coisas.

3 comentários sobre “Sobre mentiras e verdades duvidosas

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