Mimosa

Mimosa no inverno

Meu marido, buscando me agradar nesses dias quarentena, foi ao mercado e voltou todo feliz dizendo que tinha comprado tangerinas porque sabe que eu gosto. Elas ficaram quase uma semana na fruteira até que, para não fazer desfeita, eu resolvi comer uma em uma manhã de domingo, mas confesso que a minha expectativa em relação a esse momento acabou sendo muito frustrada.

Eu realmente gosto de tangerina, mas provavelmente é porque com ela vem com uma série de lembranças doces e felizes. Em primeiro lugar, não é tangerina. É mimosa. No máximo, deixo você chamar de poncã. Qualquer coisa diferente disso, e ela já não tem o mesmo gosto doce de infância. Vira uma fruta há uma semana na fruteira e só.

A gente tinha um pé de mimosa no quintal de casa quando eu era pequena. No inverno, a gente terminava de almoçar e ia para o sol comer mimosa em uma rodinha improvisada com bancos e cadeiras velhas que ficavam do lado de fora da casa. Eu, meu pai, minha mãe e meu irmão.

Subir no pé de mimosa para colher as frutas que a gente ia comer era uma aventura. Ele ficava no meio do galinheiro, no fundo do quintal. Mas eu tenho medo de galinhas (me julguem) e precisava entrar lá escoltada pelo meu pai, que pacientemente repetia esse ritual várias vezes a cada inverno. Mesmo reclamando que era frescura, ele me protegia das galinhas até que eu chegasse ao pé de mimosa. E então ele nos ajudava, eu e meu irmão caçula, a subir no pé de mimosa e escolher as frutas que a gente ia comer. A gente fazia um estoque de mimosa para comer ao longo dos próximos dias.

Mas todo dia, durante o inverno, a gente sentava no sol depois do almoço para comer mimosa. E elas eram doces e fáceis de descascar. E todo mundo saía com aquele cheiro delicioso de mimosa.

O cheiro da mimosa sempre me transportou direto para esses momentos e tornou meus dias mais felizes. Não importa se era três da tarde em um dia insuportavelmente complicado no trabalho. Quando alguém descascava uma mimosa e inundava o ambiente com aquele cheiro de infância, eu ficava mais feliz.

Hoje foi diferente. Eu comi a tangerina que meu marido comprou pra me fazer feliz, mas o efeito não foi o mesmo.

Primeiro, porque é mimosa, não tangerina. Segundo, porque está calor e não é a mesma coisa comer mimosa no sol no calor. Terceiro, comer mimosa sem uma rodinha com meu pai, minha mãe e meu irmão no sol é só comer tangerina, mesmo. E ela não estava docinha como as mimosas do pé do nosso quintal, no meio do galinheiro. E também não estava com cheiro de mimosa. Só um cheiro bem fraquinho de tangerina, que nem impregnou a minha casa inteira.

Mas, talvez, tenha sido exatamente a mesma coisa, mas estar a tantos quilômetros distante de casa cobra um preço alto. Talvez a apreensão sobre os dias de quarentena, com o que vai acontecer nas próximas semanas, com a ansiedade de saber se meus pais estão se cuidando, se estão evitando sair de casa, se estão saudáveis, talvez tudo isso tenha estragado minha mimosa e a transformado em uma tangerina protocolar. Vou tentar de novo daqui uns meses. 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s