Trinta, menos um

A maior mentira que nos inventaram na vida, foi essa história de fazer um aniversário com idades que terminam no número 9. Veja bem, ninguém faz 9 anos: se faz quase dez. Ninguém faz 19: se faz quase 20. No meu caso, não estou fazendo 29: eu cheguei na taxativa idade dos quase 30. E essas idades são um limbo, tão confuso e tão desnorteador, que muitas vezes a gente precisa respirar duas vezes para lembrar que isso são só números em um documento social.

Olhando do meu prisma atual, essas idades que batem na trave nos colocam numa posição mista. 9 anos é uma idade muito jovem para você sair de ônibus sozinho pela cidade, mas é o suficiente para você poder cuidar das suas responsabilidades de colégio, seu quarto e suas obrigações básicas de criança. 19 é uma idade muito jovem para te contratar como gerente de uma loja, mas já é uma idade avançada para você saber fazer determinadas escolhas cruciais na sua vida e que podem acarretar consequências gigantescas. 29, você ainda pode curtir uma baladinha no final de semana e beber como se tivesse os famigerados 19, mas não é forte o suficiente para aguentar seu ciático no dia seguinte e as doses de omeprazol/ibuprofeno que terão que ser tomadas para você conseguir abrir os olhos, enquanto a sua língua sofreu uma hidrólise tão grande que parece que você comeu uma meia. Essas são épocas em que a gente vai contra as leis da física e ocupa dois lugares ao mesmo tempo. Jovem demais para isso, velho demais para aquilo.

Eu estou saindo da casa dos 20. E tem sido um tempo de muita reflexão, considerando, inclusive, que a idade do limbo veio no mesmo ano de uma pandemia que está nos obrigando a fazer uma auto análise rara. Eu sou jovem demais para morrer de coronavírus, mas já não tenho idade para achar que minha fertilidade ainda está no auge e, tampouco, para pensar que ficar de madrugada no frio não me daria uma infecção na bexiga. Eu não fico sem comprimidos para dor muscular, preciso de atividade física para cuidar da saúde, já não perco peso como antes e meu corpo é outro. Os “eu te amo” de antigamente, me parecem uma piada mal contada e pouquíssimas pessoas me dão vontade de estender uma conversa por mais de quinze minutos. Meus melhores amigos têm, em sua maioria, mais de 10 anos do que eu, já que não consigo mais ter “papo de jovem”, tampouco paciência para o mesmo. Essas mudanças visíveis vão nos colocando uma verdade diante dos olhos: o tempo passou. E ele passou, usando o maior dos clichés: rápido demais. Voou. Minha primeira graduação já está fazendo aniversário de década, a menina que fazia cursinho não existe mais, as minhas verdades são outras e, hoje, já não me reconheço quando me lembram de determinadas atitudes que tomei.

Sinto o limbo sempre que coloco algumas coisas na balança. Por exemplo, me sinto totalmente apta para voltar às 6h da manhã do boteco com os amigos, mas fico me lembrando o tempo todo de tomar água durante a cervejada, porque eu tenho enxaqueca. E as doses de café, antes tão presentes nas minhas madrugadas à fio de estudo, hoje precisam de melhor controle, já que cafeína atrapalha o sono. Eu tenho distúrbio de sono, inclusive. Minhas horas de descanso estão mais escassas do que nunca, eu trabalho o triplo, até confesso que ganho muito melhor, mas muitas vezes não consigo ver minha família nos finais de semana por causa do trabalho e meu dinheiro tem destino certo para contas e futuras aquisições. Sem glamour, sem muitos luxos. Ácido hialurônico virou meu melhor companheiro antes de dormir, umas gotinhas de vitamina C abaixo dos olhos e alongamentos diários. As responsabilidades são outras, as prioridades são outras e, no final das contas, a gente carrega o peso das cobranças, sejam elas dos outros ou de nós mesmo. Não viajei o quanto queria, não realizei as metas que eram para terem sido alcançadas aos 25 e a minha vida afetiva continua sendo uma montanha russa desgovernada. No fundo, sinto que ainda sou uma menina que usa os mesmos tênis de dez anos atrás e moletom surrado para ficar em casa, mas que agora tem que arcar com responsabilidades de gente grande. Não tem um ponto de equilíbrio exato para isso.

No fundo, não faço 29 anos. Faço trinta menos um.

E tudo bem, a minha trajetória foi muito boa até aqui. Só, por favor, me deixem curtir o finalzinho de mais uma década. Eu ainda sou jovem demais para deixar de aproveitar isso com uma boa festinha.

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