Lembranças

Muitas coisinhas

Podem me chamar de acumuladora, mas eu tenho muitas coisinhas espalhadas pela casa. Dessas coisinhas inúteis – ou nem tanto – que a gente vai acumulando ao longo da vida e nem se dá conta. 

Percebi isso enquanto faxinava a casa num fim de semana. O que é uma grande ironia, porque quando eu era mais nova eu odiava as coisinhas da minha mãe, que tornavam a tarefa de tirar o pó da estante extremamente demorada. Mas eu fui tirar o pó do escritório da minha casa e, adivinhem, lá tem muitas coisinhas.

Tem não sei quantas réplicas de monumentos turísticos que eu e meu marido visitamos na nossa lua de mel. A gente se empolgou um pouco e quase gastamos mais com lembrancinhas do que com comida. Eu olho pra elas e me dá um quentinho no coração de lembrar da nossa viagem dos sonhos.

Tem também um porquinho de resina bem pequenininho que eu ganhei da minha bisavó. Eu não tenho muitas lembranças dela porque a vi poucas vezes. Lembro que quando ela morreu eu estava na praia com meus tios e todo mundo voltou pra casa correndo e meio esquisito porque a Baba morreu. Mas eu olho pro porquinho e lembro dela, bem velhinha, sentada na varanda da casa dela rezando o pai nosso em ucraniano. Lembro da casa dela toda cheia de coisinhas e sinto uma saudade difícil de explicar. 

O porquinho da Baba fica em cima de uma mesinha de madeira com quatro cadeiras, também bem pequenininhas, que meu vô fez e me deu. Meu marido já tentou me convencer a jogar a mesinha fora um bilhão de vezes, sem sucesso. Eu olho a mesinha e sorrio pensando no meu vô e no abraço de quase me quebrar a costela que ele vai me dar quando eu for pra Curitiba visitá-lo. Meu vô tem um sotaque carregado e uma mania de fazer cócegas no meio do abraço que tornam ele muito especial. A mesinha fica. 

Ainda no escritório tem também um daqueles globos de neve com um bonequinho dentro. Eu ganhei do meu melhor amigo em nenhuma ocasião especial. Mas lembro que ele disse que esse era um daqueles presentes que você compra esperando dar pra alguém especial que você quer ter sempre por perto. Então eu olho pra ele e lembro das longas horas de desabafos que ele aturou, da vez que ele tentou me convencer a beber tequila no almoço de um dia útil e das histórias que só a gente entende. 

Ainda falando no meu melhor amigo, tem um ursinho no bidê ao lado da minha cama que ele me deu de presente de aniversário uma vez. Ele deixou o presente com a minha mãe e quando cheguei em casa me deparei com um embrulho que parecia uma bomba. O ursinho foi todo remendado por ele como se estivesse todo quebrado. E tinha um bilhetinho que dizia: “Espero me sair melhor que ele na nossa guerra. Quer dizer, amizade”. E o ursinho me lembra de uma época antes de ele virar meu melhor amigo em que a gente ficava se sacaneando o tempo todo e me dá vontade de rir. 

Esse ursinho está do lado de outro ursinho, que eu ganhei do meu marido no nosso primeiro dia dos namorados juntos, junto com chocolates. Eu olho pra ele e lembro dos 3.765 presentes que meu marido me deu que eram chocolates – porque eu não gosto de ganhar flores -, até o dia em eu delicadamente falei pra ele que ele podia variar de vez em quando. 

Na sala tem um patinho feito com conchas que eu ganhei do meu pai quando ele viajou. Na dispensa, uma caixa de ferramentas que ele me obrigou a providenciar antes de mudar de cidade. E na cozinha, uma caneca que ele e minha mãe compraram quando foram fazer uma viagem que eu dei de presente pra eles porque era o sonho da minha mãe. E pela casa toda tem toalhinhas que a minha mãe fez pra mim de crochê, mesmo ela não gostando tanto assim de fazer crochê. Eu olho pra elas e ouço a voz da minha mãe reclamando que eu não sei distinguir o lado certo e elas estão sempre do avesso. E eu olho pra tudo isso e lembro o quanto sou sortuda por ter pais tão incríveis. 

No corredor, um quadro escrito “Alegria” que eu ganhei de uma amiga muito querida. Em torno dele eu coloquei uma série de fotos com pessoas amadas, que enchem a minha vida de alegria. 

Na cozinha tem um peixinho, que é um porta vela (isso existe?), que a gente ganhou de um casal de amigos na primeira vez que eles foram na nossa casa nova. 

Voltando ao escritório, tem duas estantes de livros brancas, o que não é exatamente uma coisinha, mas tem o mesmo espírito. Eu olho pra ela e lembro da noite em que eu e minha melhor amiga montamos os móveis munidas de um manual, um pente e um moedor de alho (daí a insistência do meu pai em providenciar uma caixa de ferramentas antes de eu mudar para outra cidade).

No escritório tem também um chaveirinho de coração pequenininho escrito “Eu te amo” que eu ganhei da minha sobrinha de seis anos junto com um desenho. Na geladeira tem outro desenho que ela fez de nós duas. Eu olho pra eles e meu coração aperta de saudades e de amor.

Na geladeira tem um imã de cada cidade por onde eu e meu marido já viajamos. Eu olho pra eles e sorrio ao pensar em tantos momentos bons. 

E tem um enfeitinho que eu ganhei de uma amiga quando ela voltou de uma viagem para a Alemanha. Eu olho pra ele e lembro de quando ela chorou quando a gente convidou ela pra ser madrinha do nosso casamento. 

São muitas coisinhas. Fora as coisinhas que eu, depois de muito relutar, dei pra minha sobrinha. Uma boneca de pano que eu ganhei de um amigo muito especial. Um ursinho todo estilizado que eu ganhei de uma amiga na oitava série. Um ursinho que fala “eu te amo” quando é abraçado que eu ganhei de aniversário da equipe da primeira redação de jornal que eu trabalhei. Um coração de pelúcia que eu ganhei de um amigo. Minha coleção de ursinhos da parmalat. 

Se você me deu uma dessas coisinhas, sinta-se duplamente homenageado. Elas só não estão mais comigo porque estão com uma pessoa muito importante pra mim, que me pediu com os olhinhos de jabuticaba mais irresistíveis do mundo e prometeu cuidar bem de tudo. Ela também já tem as coisinhas dela.

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