pé da minha cama

O pé da minha cama

O pé da minha cama quebrou e eu fui invadida por uma saudade irremediável de casa. Eu estava secando a pia do banheiro quando meu marido anunciou a tragédia. Cheguei ao quarto e ele tinha virado a cama de cabeça para baixo pra eu avaliar o estrago. A primeira coisa que eu pensei quando vi a cena foi ‘caramba, se meu pai estivesse aqui ele daria um jeito’. Meio segundo depois eu encontrei a solução e anunciei ao meu marido: “esses pés são rosqueados. É só tirar os outros cinco e deixar o box direto no chão’. O problema está parcialmente resolvido e a gente não precisou dormir no chão nenhuma noite. 

Esse episódio me deu uma saudade inexplicável do meu pai. É o tipo de coisa que aconteceria lá em casa e faria minha mãe reclamar por anos a fio que a solução temporária virou definitiva e nunca mais se falou em comprar uma nova cama. E como eu tenho muito do meu pai, talvez isso aconteça aqui também. 

Dia desses eu encasquetei que queria mudar a disposição dos móveis do escritório. Só porque sim. E eu senti saudades da minha mãe e de quando eu morava perto dela e toda vez que eu ia visitar os móveis da casa estavam em um lugar diferente. Eu chamei meu marido pra ele me ajudar a pensar em outra forma de deixar os móveis. Primeiro ele reclamou dizendo que não tinha necessidade de nada disso. Quando viu que essa era uma batalha que ele nunca ia ganhar, começou a arrastar as coisas. Nada ficou bom e a gente voltou tudo pro lugar. 

E eu fiquei com saudades do tempo em que eu ligaria pra minha mãe e pediria pra ela passar aqui em casa semana que vem pra gente ver como podia mudar o escritório. Passou uma semana e eu encontrei um jeito pra mudar a disposição dos móveis e deixar como eu queria. Mas como eu tenho muito da minha mãe talvez daqui uma semana eu queira mudar de novo. Só porque sim. 

Estar a 1400 quilômetros de distância de casa tem dessas. Tem dias que são bem ruins. 

Meus pais me criaram para isso. Para saber arrumar uma solução quando a cama quebra no meio de uma pandemia que deixou todo o comércio fechado. Para conseguir mudar sozinha a disposição do escritório.

Mas eu nunca precisei colocar nada disso em prática antes. Quando eu saí de casa para morar com uma amiga, meu pai fez a minha mudança. Minha mãe ajudou a organizar o apartamento. Toda vez que eu tinha um problema, eu ligava pra eles e eles iam correndo me ajudar. Mesmo que fosse algo que eu fosse plenamente capaz de solucionar sozinha. 

Desde pequena, meu pai sempre me fez observar atentamente quando ele tentava solucionar um problema pra mim. Toda vez que ele ia trocar a resistência do chuveiro, ele me fazia assistir e narrava o passo a passo. Eu nunca precisei trocar a resistência do chuveiro, porque meu pai sempre fez isso pra mim. Mas o dia que ele não podia ir até o meu apartamento, eu fui lá e fiz sozinha, porque lembrava do passo a passo. 

Uma vez eu fiquei trancada no banheiro. Meu pai muito tranquilamente me disse que não ia arrombar a porta, foi até a janela, me passou uma chave de fenda e mandou eu desmontar a porta por dentro. Eu entrei em pânico porque achei que ia morrer dentro do banheiro. Até que ele conseguiu abrir a porta por fora – sem arrombar. E me explicou o passo a passo. 

Até que um dia eu estava no meu apartamento a 1400 quilômetros de distância e a porta emperrou. A solução foi desmontar a porta por dentro. Só não deu certo porque ela estava com os parafusos cheios de tinta – o que teria causado uma síncope no meu pai pelo serviço de pintura mal feito. 

No meu apartamento a 1400 quilômetros de distância eu já troquei chuveiro, já tentei consertar porta, já instalei sozinha um transformador para ligar todos os eletrodomésticos da casa, já descobri e solucionei sozinha um vazamento na máquina de lavar. 

No meu apartamento a 1400 quilômetros de distância eu já organizei os armários, já mudei a disposição dos móveis da sala duas vezes, do escritório uma vez e arrumei lugar para toda a papelada. E tenho gavetas sobrando. Eu tirei manchas dos panos de prato e fiz polenta sozinha.

Meus pais me ensinaram a fazer tudo que for necessário sem depender de ninguém. Eles me criaram para ser uma mulher independente e capaz de fazer o que eu quiser – de pudim a montar prateleira sem nenhuma ferramenta decente a disposição.

Mas eles nunca conseguiram me ensinar lidar com a distância de casa. Porque se teve uma coisa que eles nunca foram durante toda a minha existência foi distantes. Consequentemente, eu não sei lidar com a falta do café com bolo no domingo à tarde. Com o cochilo no sofá depois do almoço em família. Com a impossibilidade logística do “fim de semana eu passo aí e dou uma olhada”.

Eu sigo a 1400 quilômetros arrumando pés da cama e mudando a disposição dos móveis do escritório, mas com o coração cada dia mais apertado de saudade.

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