Pequenas vitórias feministas - Kelli Kaddanus

Pequenas vitórias feministas

Certa vez eu estava me preparando para viajar e passar dez dias fora de casa. Minha mãe me ligou para saber a que horas eu chegaria para ela e meu pai me buscarem no aeroporto. Antes de desligar, ela perguntou se eu tinha deixado comida pronta para o meu marido para ele se alimentar enquanto eu estivesse fora. Eu soltei uma risada como se ela estivesse me contando uma piada e respondi: “Eu não tenho filho desse tamanho para alimentar”. 

Primeiro ela ficou um pouco chocada. E até soltou um “tadinho”. Dois segundos depois, ela disse que eu estava certa. No fim, meus pais não me criaram mesmo para eu deixar comida pronta para o meu marido quando eu for viajar – graças à Deus. 

Acho que isso foi a coisa mais importante que eles fizeram por mim em toda a minha existência. Meus pais me colocaram em boas escolas enquanto podiam pagar. Meus pais nunca exigiram que eu trabalhasse fora – mas também nunca me impediram. Meus pais nem sempre me compraram as roupas da moda, os melhores tênis, a mochila mais descolada, nem eletrônicos caros. Mas meus pais nunca me negaram nenhum livro que eu pedi em toda a minha vida. Nunquinha. 

Lembro que quando eu era menor meu pai me levava com ele em um mercado onde ele comprava no atacado os produtos para vender na mercearia dele. Eu adorava ir com ele, porque enquanto meu pai fazia as compras eu ficava na seção de livros e eram raríssimas as vezes que eu saía de lá sem um embaixo do braço. A gente repetia esse ritual uma vez por semana, mais ou menos. 

Minha mãe me ensinou a faxinar a casa e a cozinhar. E ela pegou mais leve com o meu irmão do que comigo nesse aspecto. Mas eu sei que ela estava fazendo o melhor que ela podia. E o melhor que ela podia era me ensinar a me virar sozinha e me dizer que tudo bem se eu nunca quisesse casar. 

Mesmo sendo presidente do fã clube do meu marido, minha mãe sempre me aconselhou a não casar. No dia do meu casamento, enquanto me levava ao altar, meu pai me disse que tudo bem se eu quisesse ir embora, o carro ainda estava ligado e a gente resolvia isso rapidinho se eu quisesse. 

Eu cresci achando mesmo que eu não precisava casar, porque minha mãe disse que eu não precisava. E a mãe da gente sempre tá certa, mesmo quando a gente não gosta de admitir. 

Por isso, quando eu decidi casar eu sabia que eu não precisava ser mãe do meu marido. Que eu não precisava limpar, cozinhar e passar para ele. Mesmo sem perceber, foi minha mãe que me ensinou isso. Ela fica chocada às vezes quando eu digo que a gente divide a maioria das tarefas em casa, mas ela acha o máximo. Não sei se ela sabe que foi ela quem me ensinou isso. 

A divisão de tarefas ainda é desigual, mesmo que meu marido seja muito melhor que a média dos maridos que eu conheço. Quando eu contei ao meu marido que minha mãe perguntou se eu ia deixar comida pronta ele deu risada – quem cuida da comida em casa é ele, desde sempre. Mas eu ainda fico sobrecarregada de vez em quando. Ainda tem toda a carga mental – sempre ela – que envolve ser mulher e ter uma casa para administrar. 

Mas a minha vida é melhor que a da minha mãe nesse aspecto – apesar de meu pai ter melhorado um pouco, pelo menos na minha frente, de tanto que eu perturbo a vida dele sobre isso. A vida da minha mãe é um pouco melhor que a vida da minha vó. Eu não sei se quero ter filhos – de novo, minha mãe me ensinou que filhos dão muita dor de cabeça e tudo bem se eu não quiser. Mas as minhas sobrinhas certamente terão uma vida melhor que a minha. Com mais divisões de tarefas em casa. Com mais igualdade de gênero no trabalho. 

Minha sobrinha de sete anos disse pro meu marido uma vez que não interessa que ele é menino. Tem que arrumar a bagunça dele mesmo assim. Eu só cheguei a essa mesma conclusão quando eu tinha uns 12 anos. 

Minhas sobrinhas vão ter muito a fazer, é verdade, mas o ponto de partida delas vai ser mais à frente que o meu, que foi mais à frente que o da minha mãe, que foi mais à frente que o da minha vó. 

A gente pode ficar triste e desanimado às vezes com alguns retrocessos, mas a verdade é que a gente está sim mudando as coisas, mesmo que não seja na velocidade que a gente gostaria. Ainda temos muito a fazer. Precisamos lutar para que parem de nos matar. Para quer nos paguem igual aos homens que fazem o mesmo trabalho que o nosso. Para que ouçam com respeito o que temos a dizer. Para que todas as mulheres possam ser livres e donas do seu nariz. Mas as coisas estão, sim, mudando. E isso não tem preço. 

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