Depois de hoje

Eu me acompanhei por um tempo. Lidei com feridas sem o peso cruel do juízo de valor alheio e segurei a minha mão com força, porque muitas vezes era só o que eu tinha. Eu tentei olhar profundamente para o abismo que são os meus sentimentos, mas aí o abismo me olhou de volta, como Nietzsche havia avisado. Lutei com meus monstros de forma injusta, sem saber quais armas usar.

Eu bebi uma taça. Eu bebi duas.

Eu cavei o mais fundo que eu podia para tentar tirar de mim a mágoa de não conseguir o que eu queria. E tirar de mim as ausências provocadas por quem deveria ter me dado colo e não me deixado na rua, sem rumo, sem chance e sem previsões. Eu procurei no vão das unhas, um punhado de perdão, mas eu só encontrei um pouco de medo e de mais vazio, mais ausência, mais dor. Eu busquei um caminho que não me trouxesse todos os dias para o mesmo ponto de partida, mas eu descobri que no final das contas a gente sempre está saindo de algum lugar em busca de outro.

Eu fumei um cigarro. Eu fumei dois.

E cada dia que passou, até aqui, me lembra que no fundo ninguém deixa o dia em que se despedaçou. A gente vive tentando reencontrar os estilhaços, enquanto esses cacos vão nos cortando e fazendo-nos em mais partes e mais pó e mais medo e menos ar nos pulmões. Eu consegui me reconstruir uma vez. Duas. Mas acabei permitindo que alguém fizesse esse meu trabalho de reconstrução algo inútil. Eu vivi anos na mesma posição, aí meus membros foram atrofiando e agora eu não sei mais como abrir meu coração porque eu tenho medo da luz. E da nudez. E da versão crua que é preciso assumir para amar. Eu ando sempre arcada e mau humorada, porque se eu for a versão positivista dessa coisa que eu sou agora, talvez eu perca mais um pedaço.

Eu sigo um caminho. Eu sigo dois.

E, depois de hoje, irei permitir que os mortos enterrem seus mortos e os pecados sejam perdoados por quem quer que seja. Tentando segurar a sua mão e pedindo com a honestidade de quem não tem nada para oferecer: fica.

Eu morri uma vez. Eu morri duas.

Eu vou continuar morrendo enquanto eu puder.

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