Meu cabelo rosa

Eu fui uma adolescente que nunca deu muito trabalho para os meus pais. Nunca fumei, nunca cogitei usar drogas, nunca tirei notas baixas na escola. Não pensei nem por um segundo em fazer tatuagem ou colocar piercing em nenhuma parte do corpo. Nunquinha. Também não fui de namorar muito cedo. Dei meu primeiro beijo aos 16 anos. Sempre ouvi muito respeitosamente a maioria dos nãos que eu recebi dos meus pais ao longo da vida. 

Apesar de ter facilitado a vida dos meus pais, isso trouxe consequências desastrosas para a minha vida adulta. Por exemplo, a primeira vez que eu fui pintar o cabelo com papel crepom foi beirando os trinta anos de idade. E isso foi bem ruim. 

Claro que eu não inventei de pintar o cabelo com papel crepom só porque sim. É quarentena, não tem muito o que fazer, duas crianças para entreter em casa. A gente tem que dar os nossos pulos, né? 

Então eu prometi as minhas sobrinhas de 7 e de 2 anos que a gente teria um dia de princesa e, sendo assim, pintaríamos o cabelo com cores divertidas. Munida de papel crepom, uma toalha de rosto velha, um secador de cabelo e do google, virei personal hair stylist por um dia. 

O plano era fazer mechinhas coloridas no cabelo. Rosa, azul, amarelo. O papel crepom amarelo era muito claro e não deu certo. O azul não desbotou nem com reza brava. Mas o rosa ficou no ponto. Acontece que o plano das mechinhas saiu um pouco do controle e terminamos eu e as crianças de cabeça para baixo com o cabelo inteiro dentro da água colorida. 

Minha mãe disse que em três lavagens a coloração sairia do cabelo. Tenho certeza que essa não foi a primeira mentira que ela me contou, mas foi a que mais doeu. Já se foi um mês e meu cabelo ainda está colorido – nesse momento um pouco laranja, porque o rosa já desbotou. 

Só que as férias acabaram e eu voltei ao trabalho. Ah, mas é quarentena, você deve estar pensando, está todo mundo em home office. Sim, correto. Mas eu sou jornalista. E eventualmente gravo materiais em vídeo para o jornal. Como é que eu vou gravar sobre investigações do STF envolvendo o presidente com o cabelo rosa? Ou laranja? Que tipo de credibilidade eu vou passar com meu cabelo colorido ao falar sobre votações importantes no Congresso?

Nada disso teria acontecido se minha mãe tivesse me deixado pintar o cabelo com papel crepom quando eu era adolescente. Eu saberia, por exemplo, que é uma péssima ideia pintar o cabelo inteiro. E saberia que três lavagens não são suficiente para tirar a coloração de jeito nenhum. 

Adolescentes, fica aqui o meu conselho. Sejam rebeldes enquanto podem. Quando vocês crescerem, só vão parecer malucos, mesmo. 

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