A minha pele preta é o meu manto de coragem

Olá, meu nome é Jorge Guerra e eu sou uma bicha preta. Eu poderia começar da forma tradicional dizendo que tenho 27 anos, que nasci e cresci na periferia de Salvador até os meus 21 anos, quando vim morar em Criciúma/SC e que hoje sou advogado. Tudo isso é verdade e dizem algo sobre quem eu sou. Mas prefiro o caminho subversivo, destacando as características que a nossa sociedade repudia, mas que não me impediram de chegar onde estou.

Certa vez, muitos anos atrás eu ouvi de alguém a clássica frase “Não basta ser preto, tinha que ser viado também” e aquilo me atingiu muito negativamente na época. Foi como se colocassem um espelho na minha frente e me fizessem encarar aquilo que sou como defeitos indefensáveis. Eu era um adolescente cheio de incertezas e ainda estava num processo de aceitar quem e como eu era, de entender o que significava não ser só um homem negro, mas também um homem negro e homossexual e aquela frase veio cheia de significados porque existia verdade nela, eu era preto e era viado e foi ali que eu descobri que dificilmente seria bem visto por ser quem sou.

Ocorre que, uma vez tendo aceitado quem sou, não existe mais a possibilidade de que me ofendam com as minhas próprias características e é exatamente por isso que hoje em dia eu faço questão de me apresentar como uma bicha preta muito orgulhosa. É quase que uma psicologia reversa: Eu os atinjo com aquilo que utilizariam pra me atingir. Linn da Quebrada, uma travesti preta e cantora, diz em uma das suas músicas “A minha pele preta é o meu manto de coragem, impulsiona o movimento, envaidece a viadagem” e eu sigo essa filosofia de vida.

“A minha pele preta é o meu manto de coragem, impulsiona o movimento, envaidece a viadagem”

Linn da Quebrada

Em que pese eu tenha dito que sou uma bicha preta e que nessa descrição a sexualidade venha antes, eu gostaria de destacar que sou, antes de tudo, um homem preto e que assim sou lido pela sociedade. Quando chego num espaço, antes de notarem que sou gay, as pessoas notam que sou preto e isso traz, automaticamente, uma série de significado na cabeça das pessoas e é exatamente sobre esses significados que eu pretendo discorrer semanalmente neste espaço.

A nossa sociedade é estruturalmente racista e não é fácil ser uma pessoa negra numa sociedade racista. Além disso, a luta antirracista deveria ser protagonizada por pessoas brancas, uma vez que sejam os únicos beneficiados com esse sistema que, na outra ponta e em última instância mata pessoas pretas, mas, não sendo o caso, estarei aqui sempre chamando a branquitude à responsabilidade sempre que possível.

Silvio Almeida disse uma frase em sua recente entrevista no programa Roda Viva: “Movimento negro são pessoas negras se movimentando”. Isso me abriu um horizonte em que a luta antirracista não necessariamente prescinde de uma organização política ou social (embora seja importante). Assim, cada pessoa negra pode contribuir individualmente e dentro da sua vontade/necessidade/possibilidade com esta luta tão importante. Eu sou negro, estudo sobre questões de raça, estou me movimentando e, portanto, faço parte do movimento negro na luta antirracista.

“Movimento negro são pessoas negras se movimentando”

Silvio Almeida

Para além de estudar sexualidade e raça, eu sou fã da Música Popular Brasileira, de musicais da Broadway, da Beyoncé, de Grey’s Anatomy e de uma série de outras coisas. Digo isso para destacar que assim como eu, pessoas negras são diversas e estão muito longe de se limitarem a debater apenas sobre questões raciais. Eu poderia indicar aqui uma série de criadores de conteúdo negros e negras que fazem humor, que falam sobre educação financeira, sobre maquiagem, sobre ambiente corporativo, sobre literatura etc. e tenho todas essas referências porque as busquei, deixando aqui a dica de um exercício importante. Eu fiz essa escolha (a de estudar e falar sobre raça sempre que possível), o que nem sempre é fácil, mas é isso, uma escolha particular e não uma obrigação. Inclusive, pretendo diversificar os temas por aqui sempre que sentir essa necessidade.

Encerrando com mais uma citação, trago Baco do Exu do Blues, rapper soteropolitano que diz, na sua música intitulada Esú: “Eu sou o canto do mundo e nesse canto do mundo, eu me refaço” Ser negro atualmente ainda é isso, ser colocado “no canto do mundo”. Ocorre que, em contramão do que era esperado, seguimos nos refazendo constantemente e reivindicando o nosso direito de ser e de existir.

“Eu sou o canto do mundo e nesse canto do mundo, eu me refaço”

Baco Exu do Blues

Convido você que leu até aqui a me acompanhar nesta jornada de reflexões sobre temas que estudei, que vivenciei, histórias que tenho pra contar e reflexões que tenho sobre a vida para compartilhar. Vamos juntos.

3 comentários sobre “A minha pele preta é o meu manto de coragem

  1. Olá Miguel, principalmente quero dizer PARABÉNS! Cada letra que compõem essa palavra és merecedor, ter coragem para levantar uma bandeira hoje é praticamente se colocar em um pequeno grupo, grupo esse que será odiado pelo simples fato de ser diferente. Eu penso que da mesma forma que as pessoas apreenderam a odiar, elas também podem aprender a amar e amar, é respeitar! Segundo te deixo um exemplo a seguir. Mandela para mim foi um mestre, sim mestre, porque ensinou que não é a cor que nos separam, pois o que é uma cor? O que realme nos separam são as idéias, então, lute por uma sociedade livre. Lute!lute para seu texto sair do papel e alcançar as ruas em pessoas. E aqui finalizo desejando mais textos! 🙏

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