Eu já morri tantas antes de você me encher de bala

A ideia inicial era escrever um texto sobre o centésimo “caso isolado” de violência policial divulgado pelo programa Fantástico, da Rede Globo, em 12 de julho de 2020 em que uma mulher negra foi pisoteada por um policial. Até tentei algumas vezes, mas não consegui por alguns motivos. O principal deles é justamente o fato de que este está longe de ser um caso isolado. Casos de violência policial contra a população preta são cotidianos no Brasil e se a gente se choca com os que chegam aos holofotes é bom ter em mente também que existem uma infinidade de outras atrocidades que sequer chegam ao conhecimento do senso comum.

Considerando que o que deveria ser excesso já é regra há muito tempo e que essa regra só é aplicada a um grupo específico de pessoas, podemos partir do ponto de que o Estado brasileiro está ciente dessa realidade e é o principal responsável pela manutenção dessa estrutura. Seja através da promoção do genocídio negro ou da omissão diante de tantas mortes.

O exercício é bem simples, de todas as manchetes de violência policial que você consiga lembrar neste momento, quais delas envolvem pessoas brancas? E ricas? Quais delas ocorreram em bairros nobres? Quantas crianças brancas foram vitimadas por balas perdidas em 2020? Sabendo a resposta de todas essas perguntas, proponho uma última: Por que será que as pessoas negras, 54% da população brasileira, nunca protagonizam estatísticas de prestígio social (mais ricos, maioria em bairros nobres, em espaços acadêmicos), mas sempre protagonizam os índices negativos de segurança pública? Isso tem um nome dado pelo filósofo camaronês Achille Mbembe: NECROPOLÍTICA.

Não tenho aqui a pretensão de esgotar todo o conceito apresentado pelo Mbembe no seu ensaio intitulado Necropolítica, o que nem seria possível em um espaço tão curto, mas considero importante sabermos nomear as coisas para que possamos debate-las e assim quem sabe encontrarmos uma solução para o problema.

Para entender necropolítica é necessário voltar o nosso olhar para a colonização e como esse processo se deu. Ao invadir os territórios africanos (mas não só) e encontrar pessoas com uma cultura e um modo de vida diferentes do seu, o homem europeu se investiu de uma autoridade para inventar outro. Neste processo o homem branco se colocou num lugar de universalidade, sociabilidade e racionalidade, reservando aos povos originários características como selvagens, ignorantes e, em última instância “não humanos”.

Ao retirar a humanidade destes grupos de pessoas, a colonização permitia que se fizesse com eles todo tipo de horror, uma vez que eles eram os outros, os inimigos, os inferiores e é esta a base do racismo no processo de colonização. Como homens racionais que se diziam, os europeus necessitavam de uma teoria que justificasse, “racionalmente”, toda a exploração que estavam prestes a infligir, razão pela qual a principal justificativa das ocupações era justamente a de socializar e educar aquelas pessoas selvagens.

Considerando toda essa bagagem histórica e analisando o contexto atual, Achile Mbembe baseou o conceito de necropolítica dizendo que o que ocorreu, ao fim e ao cabo, foi a reprodução da dinâmica metrópole-colônia dentro do Estado. Trazendo o exemplo para o Brasil, podemos concluir que o negro brasileiro é “o outro” tal qual pintaram o negro africano no início da colonização e, portanto, não é passível de comoção quando, por exemplo, os seus corpos são cotidianamente executados nas favelas (único lugar que lhes pertence).

É importante pontuar que quando falamos em necropolítica não estamos falando “apenas” sobre as mortes, o conceito engloba um estado absolutamente omisso quanto quando o assunto for pensar politicas públicas que de fato atendam a população negra e ao mesmo tempo hiperativo quando se trata de políticas de repressão. Um exemplo clássico disso foram as manifestações públicas ocorridas no Rio de Janeiro, em plena pandemia, pedindo pelo fim das operações policiais violentas nas favelas durante este período. O estado não só não os assistiu positivamente neste período como atuou negativamente reforçando as operações policiais violentas.

A necropolítica em pleno exercício nos tira a empatia e a capacidade de nos surpreendermos ou nos revoltarmos não só com a morte constante de pessoas negras, mas também nos leva, por exemplo, a não questionar o porque de que a população pobre e majoritariamente negra presente nas favelas, nas comunidades, nos bairros ditos perigosos, não possuem acesso a saneamento básico, a uma educação de qualidade e permaneçam sem condições dignas de moradia. Tudo isso compõe o projeto necropolítico.

Falando especificamente sobre mortes, tivemos recentemente a execução do menino João Pedro, adolescente negro com apenas 14 anos, que foi baleado DENTRO DA SUA CASA, enquanto cumpria a quarentena, durante uma operação policial em São Gonçalo no Rio de Janeiro. Um país que não se choca com uma morte nessas condições, tendo um membro direto do Estado como algoz, precisa urgentemente rever as suas prioridades

O título deste texto faz referência a Mandume, uma música do Emicida com algumas participações (muito) especiais. Uma delas, Rico Dalasam, diz: “Pior que eu já morri tantas antes de você me encher de bala. Não marca, nossa alma sorri, briga é resistir nesse campo de fardas”. Esses versos exprimem bem o conceito abordado neste texto, a necropolitica causa a morte da população negra todos os dias e em várias instâncias, tendo como ápice o fim da vida, mas de uma vida que é vista como menos importante, uma vida que passa, propositalmente, despercebida aos olhos do Estado brasileiro e que sequer é digna da comoção nacional.

“Pior que eu já morri tantas antes de você me encher de bala. Não marca, nossa alma sorri, briga é resistir nesse campo de fardas”

Rico Dalasam

Tendo suscitado a discussão, eu precisaria de um outro espaço para desenvolver sobre quais medidas acredito serem adequadas para reverter este quadro (ou pelo menos para iniciar esse processo de reversão), mas vou me limitar a dizer que eu sonho com o ideal, com um mundo em que pretos e pretas sejam sujeitos capazes de um exercício pleno de democracia e que sejamos tratados de forma a existir de fato uma democracia racial onde a cor da pele não traga tantos significados negativos como ocorre atualmente. Sei que este é um desejo utópico e por isso encerro com uma citação de Fernando Birri: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

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