Me perdoe, eu

Hoje acordei com arrependimentos.

Me arrependi do dia em que eu fiquei em silêncio diante da maior poesia que eu já vi até agora. Ela não tinha versos, métrica e tampouco grandes parágrafos. Era um silêncio infinito, contornado por toda dor e por todo alívio que existe no mundo. Foi um instante, um lapso, havia dezenas de pessoas ao meu redor e ninguém foi capaz de notar aquela poesia ali, pairando no ar. Eu me senti atravessada e nunca mais consegui ser a mesma pessoa desde então. Eu me calei, porque dentro de mim eu sabia que qualquer som poderia estragá-la, distorcê-la, tornar aquela obra de arte só mais um tesouro perdido em meio a tanta porcaria que a gente valoriza por aí. Me arrependo, porque talvez alguma palavra pudesse ter a eternizado e dividido com o mundo. Eu deveria ter segurado com as duas mãos aquela poesia velada, mas eu a deixei ir. Eu só a senti e ela voou para algum lugar que agora eu não posso acessar. E tudo bem, não há muito o que se fazer sobre isso agora.

Me arrependo dos meus ombros sempre tensionados. Nada os alivia, eu sempre tenho os sonos perturbados e eu sempre culpei a cafeína. Eu sinto muito pelas vezes que eu não escrevi por medo de tornar real aquilo que eu queria que ficasse só na minha cabeça. Coisas que parecem efêmeras, mas que tornam meus sentimentos elefantes brancos gigantes que ficam no meio da sala. Eu deveria ter escrito algo do tipo “você já foi embora de mim tantas vezes, que eu não sei se sou um ponto de partida ou de chegada” ou “se houvesse mais de você em mim, eu poderia arrancar cada verdade que eu tenho de dentro do meu estômago e virar uma mentira bem contada”. Mas isso seria demais, eu não sei lidar muito bem com os mitos que eu criei dentro dessa minha cabeça hiperativa. E quando eu olho mais perto todas as coisas que eu coloco para fora, fantasiadas de “apenas um texto bem feito”, eu começo a perceber que há uma fragilidade dentro de mim tão evidente e tão palpável, que chega ser estupidez alguém passar por mim e não ver. Mas tudo bem, a culpa da cegueira humana não é necessariamente minha.

Esse parágrafo seria sobre meu pai, mas ele não merece tudo isso. E tudo bem também, a terapia talvez dê conta um dia.

Há passado demais em todas as coisas que eu conto e há esperança demais em todas os erros que eu cometo. Eu tenho raízes sólidas em terrenos inférteis, eu compro causas perdidas e defendo pessoas duvidosas. Eu não tenho um senso ético-moral impecável e não vejo problemas com sonegação de impostos e nas escolhas alheias, porque eu acho que cada um se defende como pode. Eu divago sobre sentimentos e hipóteses, mas no final das contas eu sou só mais uma pessoa perdida numa avenida agitada, procurando um meio de não enlouquecer com as demandas adultas que nos são impostas e a gente não está preparado aos vinte e poucos anos. Eu tô com quase trinta e ainda prefiro usar tênis no local de trabalho, talvez eu deva me arrepender por isso, porque geralmente me confundem com uma estagiária. Eu duvido de pessoas que dizem que eu sou especial, porque todas as vezes que eu fui especial, na verdade, eu era só uma distração para a vida de gente entediada demais com a própria rotina. Eu passo noites em claro, lendo artigos sobre comportamento humano e psicanálise, porque eu vivo com medo de ter alguma síndrome psicótica que passa despercebida na sociedade, tipo aqueles assassinos em série que são bem vistos pelos vizinhos e pelos próprios filhos, mas esquartejam criancinhas e enterram no quintal. Mas no fim das contas eu durmo em paz porque eu só tenho ansiedade e refluxo mesmo.

Me arrependo de ter achado que era amor o que só era tesão. Ou de ter pensado que era amor, quando eu só era mais uma noite. Ou de ter visto amor onde só tinha mentira. E de ter aceitado o amor como justificativa para o que era apenas covardia. Me arrependo de ter despido meu corpo e alma para quem me beijou com armaduras. E o amor, coitado, com toda a sua violência e toda sua arte sacra de ser vivido, foi se refugiando em cada camada que eu criei. Eu errei diversas vezes ao encolher os meus ombros com desdém ao invés de erguê-los em posição de batalha e me colocar na linha de frente de uma guerra que tinha como prêmio o meu próprio bem-estar. Eu acovardei minhas euforias dentro de bom senso e responsabilidade, porque eu sempre achei que com resiliência o amor seria novamente meu amigo e me acolheria nos braços até que eu pudesse pegar no sono. Eu cometi a brutalidade de não olhar para trás quando era preciso e me apegar na ideia de que segundas chances eram fraquezas. Eu inventei uma versão minha que não fica na sua cama até o café da manhã, porque eu tenho medo de amar tão profundamente a ponto de não ter mais o que vestir. Eu assumi um posicionamento que não passa credibilidade para ser amada, porque eu não sei se suportaria ter essa segurança toda me esperando todos os dias para me dizer que eu mereço e que depois de tanto tempo e de ter crescido ouvindo o contrário, eu mereço ser amada em cada defeito que flutua dentro de mim.

Me arrependo de não ter contado até oito antes de ter respondido certas coisas, como fazia o Obama em suas coletivas. Me arrependo de ter aceito certas invasões e descobrir que existem pessoas nesse mundo que só querem nos devastar por diversão. Eu também acho que deveria ter arriscado mais vezes sobre certos momentos da minha vida, ao invés de ter pensado tanto na necessidade dos outros e não nas minhas. Eu me arrependo de todo tempo perdido diante de livros ruins e filmes água com açúcar, isso também vale para pessoas. Me arrependo do dinheiro mal gasto, das verdades duvidosas e das vezes que eu disse que não mudaria. Eu deveria ter escrito mais cartas e ter aberto meus olhos para ver a lucidez da história das pessoas que me cercam e ter usado mais filtro solar na infância. Deveria ter perdoado e seguido. Deveria ter soltado e partido. Deveria ter respeitado o espaço dos outros como eu anseio tanto que respeitem o meu. Deveria ter comido mais legumes e menos carboidrato. Eu deveria ter erguido a cabeça quando achei que o mundo estava esfarelando aos meus pés. Eu deveria respirar mais vezes ao invés de só ir enfiando o pé na porta.

Eu estou escrevendo tudo isso para poder me abraçar depois desse ponto final e dizer que tudo bem, está tudo bem até aqui. E vai estar tudo bem depois dos arrependimentos futuros. E que se amanhã eu acordar arrependida de novo, isso quer dizer que eu vivi. E talvez esse texto também seja para dizer que me perdoo, é preciso se perdoar às vezes para poder seguir.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s