Nós éramos lindos, antes mesmo deles saberem o significado da beleza

Na última sexta-feira, dia 21 de julho de 2020, Beyoncé lançou o Filme Black Is King, que reconta a história do Rei Leão da Disney, sendo protagonizado por um menino preto separado da sua família e retratando toda a jornada para o reencontro com as suas origens, uma metáfora aplicável aos negros em diáspora ao redor do mundo.

Desta forma, a obra aborda diversos aspectos da negritude, enquanto unidade, destacando fatores como a ancestralidade, a conexão com a natureza, a realeza dos nossos antepassados, a dança, religião, etc.

Outra característica marcante da obra é o afrofuturismo que, em resumo, é buscar a história e a cultura africana pré-colonial (que foi intencionalmente apagada pelos europeus) e projetar possibilidades de futuro. A obra de Beyoncé é uma ode à negritude e para a negritude apresentada de uma forma que a grande mídia ainda não tinha visto.

Acontece que, como toda obra que atinja a quantidade de pessoas que os lançamentos de Beyoncé alcança, Black Is King também é passível de críticas. A rapper norte-americana Noname teceu em seu tweet algumas críticas à utilização da estética africana num contexto capitalista. Em um de seus tweets ela disse:

“Espero que lembremos dos negros do continente cuja vida diária é impactada pelo imperialismo dos EUA. Se pudermos elevar as imagens, espero que possamos elevar aqueles que nunca serão capazes de acessá-las. Libertação negra é uma luta global.”

Noname

Aqui, observamos que a crítica não desmerece a obra produzida por Beyoncé, mas aponta que existem outros problemas que atingem a negritude, não foram desenvolvidos no trabalho e que devem ser igualmente debatidos. O peso da crítica se dá por ter sido elaborada por uma mulher negra, que possui uma preocupação válida com a situação do seu povo negro.

Aqui no Brasil, a crítica ao Black Is King que causou mais polêmica foi proferida pela historiadora e antropóloga Lilia Katri Moritz Schwarcz em seu artigo com o seguinte título:

“Filme de Beyoncé erra ao glamorizar negritude com estampa de oncinha

Diva pop precisa entender que a luta antirracista não se faz só com pompa, artifício hollywoodiano, brilho e cristal”

A professora universitária, uma mulher branca, é figura recorrente em discussões que pautam o antirracismo e as demais causas raciais, uma vez que estude sobre o Brasil colonial e é referência acadêmica inclusive na luta antirracista. Aqui vocês podem me perguntar: Qual a diferença entra as duas críticas apresentadas? E a resposta não poderia ser outra senão a intenção da obra e o lugar de onde partem as críticas.

Uma das características do racismo são as “concessões” que a branquitude faz no intuito de passar a mensagem de equidade racial, quando, em essência, só querem a manutenção do racismo. Poderia aqui citar diversos filmes muito famosos que pautam questões raciais, tendo eles uma característica em comum: A forma de expor a negritude. Os grandes sucessos geralmente falam sobre escravidão ou colocam o negro em uma situação inicial de tristeza e miséria para que depois, após muito sofrimento, alcance alguma superação. É uma fórmula pronta através da qual a branquitude nos permite falar sobre nós mesmos (Quando não são eles falando).

Ocorre que Black Is King foge completamente a essa regra, ele é feito por e para pessoas negras, ressaltando desde o início que somos descendentes de reis e rainhas. A própria Beyoncé nos disse:

“Black is King significa que todo preto é majestoso e rico em história, propósito e linhagem”

Beyoncé

É nesse contexto de estudar a vivência negra como um objeto acadêmico (ao invés de narrador da própria história) num contexto de escravidão, e no auge da pretensão por ser conhecida como um símbolo antirracista, que Lilia vem nos dizer “que a luta antirracista não se faz só com pompa, artifício hollywoodiano, brilho e cristal”. O seu conhecimento é sobre o negro escravizado e o Black Is King remonta uma história de negritude muito distante do que ela costuma ver.

A filósofa Katiúscia Ribeiro diz que história é poder. Assim, O projeto social de manutenção do racismo necessita do desconhecimento das pessoas pretas sobre a sua história para que assim acreditem que o seu lugar será sempre o da subalternidade, caso contrário, ao internalizar que a história negra é majestosa, os corpos negros poderão decidir caminhar rumo a essa realeza (como ocorre no filme Black Is King).

E isso coloca em xeque a própria concepção de antirracismo. O instituto do antirracismo prega que as pessoas brancas podem (e devem!) ser ativos na luta contra o sistema racista. No entanto, derrubar o racismo implica necessariamente na queda de tudo que a branquitude construiu e que hoje conhecemos por sociedade. Será que todas as pessoas brancas que se dizem antirracistas estão dispostas a abrir mão de todos os privilégios, que o nascer lhes confere, em prol de uma comunidade negra consciente e em constante busca da sua realeza? Me parece que pelo menos a historiadora Lilia Schwarcz não está.

A branquitude não está habituada a ocupar o espaço de telespectador, daquele que assiste, que aprende com o outro. O homem branco se colocou como sinônimo de universalidade e uma obra como essa os desconcerta justamente por narrar uma história da qual eles não fazem parte. Ainda que não tenha entendido todas as referências ou o conceito do filme, a pessoa negra que o assiste irá ver uma possibilidade de ocupar aquele espaço de grandiosidade. Já a mulher branca, antirracista, acostumada a estudar o negro enquanto objeto marcado por dor e sofrimento, não poderá ver nada além de “glamourizar negritude com estampa de oncinha” (Em tempo: Os reis e rainhas africanos utilizavam a pele de leopardo como capas por entenderem que aquele desenho remete ao universo e que todos nós somos parte deste universo, o “ciclo sem fim” abordado no filme O Rei Leão).

Por fim, espero ter conseguido demonstrar aqui que a crítica da Lilia extrapola a sua pessoa e se configura como um reflexo do que a branquitude é sobre como funciona. Black is King é uma obra coesa que definitivamente cumpriu o seu papel e provou o seu valor e com a qual ainda temos muito o que aprender a medida em que formos desvendando todas as suas referências.

Espero que ele seja um marco inicial para que várias pessoas pretas decidam buscar a sua história e que as nossas referências de moda, cultura, religião, etc. sejam cada vez mais enegrecidas e encerro com uma das frases mais bonitas do filme: “Nós éramos lindos, antes mesmo deles saberem o significado da beleza!”. Essa frase não só afirma a nossa beleza como remonta a nossa existência muito antes de sermos “descobertos” e sofrermos tantos horrores. Somos lindos! Somos realeza!

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