Mediocridade Branca

Quando a discussão é sobre cotas raciais, frequentemente escutamos argumentos contrário a essa política alegando que “somos todos iguais” e que a reserva de vagas seria uma forma de privilegiar pessoas negras. Assim, o objetivo deste texto não é defender as cotas, que estão postas, em pleno funcionamento e mostrando resultados, mas sim demonstrar que existe na sociedade uma espécie de “cotas para brancos” que não se limita à educação ou aos concursos públicos, manifestando-se em diversas áreas.

A criação do imaginário de ser humano baseou-se no homem branco, hetero, europeu e de elite. Por isso, desde o primeiro contato com os negros, os europeus negaram a sua humanidade. Não houve, na história do que hoje é o Brasil, mesmo antes do início do tráfico negreiro, um dia sem a presença do racismo.

A primeira constituição brasileira, de 1824, previa que a educação era um direito de todos os cidadãos, o que, por óbvio, excluía as pessoas escravizadas. Essa dicção incluía, em tese, os libertos, desde que eles possuíssem uma determinada renda (o que, na prática, excluía os libertos). O estado do Rio de Janeiro proibia, ate 1891 que pessoas negras frequentassem escolas, ainda que fossem libertos.

Este é só um exemplo dentre tantos outros de como a branquitude brasileira se construiu sobre privilégios obtidos em detrimento de pessoas pretas, quase sempre com respaldo legal.

Enquanto um adolescente preto que fui, sempre ouvi a minha avó e minha mãe falando coisas do tipo “preto tem que saber chegar e sair dos lugares” e “Por ser preto você tem que ser duas vezes melhor pra ser reconhecido”. Essas expressões são problemáticas, mas são muito reais. Por ser negro, existem uma série de expectativas sobre mim e recai sobre mim o dever de contradizer essas expectativas, surgindo assim a necessidade desse saber chegar e sair, de me esforçar mais por resultados, moldar o meu comportamento, etc. Será que um jovem branco ouve esse mesmo tipo de coisa?

É sobre esse crescer (cheio de expectativas, positivas ou negativas, a depender da sua cor) que eu quero falar. O simples fato de poder crescer “simplesmente sendo” confere às pessoas brancas uma leveza de consciência que as pessoas pretas geralmente não possuem. Eles crescem acreditando que podem fazer o que quiserem e acostumados a serem aplaudidos sobre os seus feitos ainda que não tenham empreendido tanto esforço quanto devessem em determinada ação.

Ainda esses dias eu estava no YouTube e acabei clicando num vídeo sobre o caso da Deputada Flordelis. A proposta era explicar o caso para que as outras pessoas pudessem entender. A Youtuber, uma jovem branca, com 1.84 milhões de inscritos, com um computador na sua frente, pecou várias vezes em mencionar ou explicar alguns fatos relevantes ao caso (como por exemplo qual foi órgão que interviu quando a deputada evangélica começou adotar muitos filhos). Pode parecer pouca coisa, mas essa situação me despertou um gatilho sobre as produções na internet. Conheço vários criadores e criadoras de conteúdo pretos e pretas que, ainda que não tenham muitos seguidores, se preocupam em apresentar um conteúdo de excelência. Um criador negro, jamais postaria aquele vídeo daquela forma e, se o fizesse, provavelmente sofreria com muitas críticas, fato que não ocorreu com a youtuber branca em questão.

E para não dizer que peguei um exemplo muito específico e extrapolei a sua importância, podemos citar aqui exemplo de grandes premiações internacionais. Em 2015 vários artistas apontaram o racismo do OSCAR, que não indicou nenhuma pessoa preta nas suas principais categorias (diretores, atores, atrizes, atores coadjuvantes e atrizes coadjuvantes). Será que, do universo gigantesco de pessoas envolvidas na produção de todos os filmes passíveis de ganhar o OSCAR de 2015, nenhuma pessoa negra estava apta às grandes categorias?

As premiações de música como Grammy e VMA criaram categorias específicas para pessoas negras como R&B, soul, urban, etc, e isso se deu om o único intuito de que as categorias principais como melhor álbum e melhor videoclipe continuem premiando pessoas brancas. Em que pese tenha batido recorde de indicação de pessoas negras, o Emmy deste ano deixou de indicar nomes como Viola Davis e TODAS as atrizes negras da série POSE.

Este é o ponto, quando pensamos em pessoas negras de sucesso, pensamos em absoluta excelência e isso se dá justamente por esse imaginário de que para “chegar lá” sendo negro é necessário ser duas, três, quatro vezes melhor. E isso não está apenas no imaginário, é a realidade. Um preto, em situação de igualdade com uma pessoa branca, muito provavelmente perderia o posto para essa pessoa branca (por várias razões, mas principalmente por algo chamado pacto narcísico da branquitude).

E neste contexto em que pessoas negras se veem obrigadas a buscarem a excelência para auferir um resultado que pessoas brancas conseguem com mais facilidade, surge o que eu chamo de mediocridade branca, que é fruto de todo esse privilégio de que gozam as pessoas brancas e que molda os seus imaginário de modo que, muitas vezes essas pessoas não se esforcem para entregar trabalhos excelentes e recebam os louros da produção conforme foi entregada (vide caso da youtuber supramencionado).

Falar sobre tudo isso invoca conceitos complexos como pacto narcísico da branquitude, privilégio branco, autossabotagem de pessoas negras, estudos sobre a colocação profissional de pessoas negras em relação a pessoas brancas, etc. Assim, quando trago, superficialmente, algum desses pontos para falar sobre o que chamo de mediocridade branca, pretendo apenas compartilhar algumas inquietações e suscitar a reflexão sobre até que ponto o racismo se manifesta nos mais diversos aspectos da nossa sociedade. Fica aqui a promessa de que ainda discutiremos mais sobre muito do que foi falado aqui

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