Nada a comemorar

No último dia 07 de setembro tivemos o feriado da independência do Brasil e precisamos refletir um pouco sobre o que essa efetivamente significa para nós enquanto uma nação.

Os livros de história costumam nos mostrar a versão dos fatos pensada a atender aos interesses eurocêntricos, colocando Dom Pedro I como um herói nacional que salvou o Brasil com o seu grito de “Independência ou morte!”. Essa cena quase canônica não remete a absolutamente nada da realidade daquela época.

Trocando em miúdos, a independência do Brasil poderia se expressar em “esse lugar não me serve mais tanto, já peguei tudo que tinha e não tenho mais razões para ficar lutando para permanecer aqui”. O ouro já tinha praticamente acabado e haviam diversos conflitos tanto na colônia quanto na metrópole, que dificultava em muito a administração. Se analisarmos friamente, o resultado do processo de independência foi o “rompimento” com a coroa portuguesa, estabelecendo-se uma monarquia que teve como figura máxima Dom Pedro I, filho de Dom João VI, rei de Portugal. Assim, podemos concluir que ainda que tivéssemos declarado a independência, continuamos a sofrer influência dos interesses portugueses.

A diferença que se entende como importante era que o Brasil não entregaria mais riquezas à Portugal, como se as riquezas agora fossem nossas, com a exceção- de que não existiam mais riquezas a serem exploradas e que até a terra, que era a riqueza maior, já estava seccionada para os portugueses e seus descendentes (famílias que são ricas até os dias atuais).

Existiram, ainda, diversos fatores externos que influenciaram (pressionaram), mas o ponto desse texto é outro. Com a proclamação da independência, iniciamos o período em que passamos a nos conhecer como um país (Sem a influência institucionalizada de uma metrópole). Assim, antes de comemorar essa data em 2020, sugiro o a reflexão sobre o que aquele momento realmente significou, a quem favoreceu e quais grupos de pessoas sofre até os dias atuais com as decisões políticas tomadas desde o dito descobrimento.

Com a independência, não se pensou qualquer política de reparação direcionada aos indígenas ou aos negros, grupos responsáveis pela construção do país com o próprio sangue, literalmente, por meio de políticas genocidas que estão entre nós até os dias atuais. Em 2020, 198 anos após a independência, qual a situação de pessoas negras e indígenas neste país que surgiu? Quais razões teríamos para comemorar? Qual espaço foi criado para que desenvolvêssemos qualquer sentimento patriota?

A construção do nosso país se deu por meio de e em função de interesses europeus, privilegiando sempre pessoas brancas em detrimento de qualquer outro grupo de pessoas racializadas. E assim, mais uma vez, precisamos fazer esse recorte de raça nesta que poderia ser uma importante data cívica. Poderíamos estar comemorando o momento em que se decidiu construir uma identidade nacional que contemplasse a união de raças presente em nosso território (ainda que essa união tenha sido brutalmente forçada).

Ocorre que não se pensou nisso à época e tão pouco se pensa atualmente. A nossa bandeira entoa palavras de ordem e progresso, o nosso hino nacional traz expressões como “pátria amada” e “Brasil, de amor eterno seja símbolo”, o que pra mim, enquanto formos um país que mata um jovem negro a cada 23 minutos, não passa de letra morta.

Precisamos pensar em possibilidades de um novo Brasil, que atenda às necessidades dos seus habitantes e, muito infelizmente, não vejo essa possiblidade atrelada ao feriado- de 07 de setembro como uma data a ser comemorada.

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