“Eu perdi tudo quando transicionei”, diz Letícia Lanz, primeira candidata trans à prefeitura de Curitiba

Apesar das dificuldades enfrentadas após sua transição, ela se restabeleceu e hoje pretender fazer da política uma forma de transformar Curitiba em uma cidade mais inclusiva e acolhedora para todos

A primeira mulher trans candidata à prefeitura de Curitiba-PR, Letícia Lanz (Psol), disse nesta sexta-feira (9/10), ao programa Regra Política, do site Regra dos Terços, que quando passou pela transição, aos 50 anos, perdeu tudo o que tinha porque as pessoas não souberam lidar com sua mudança. Ela ainda avaliou que é preciso mexer nas estruturas da sociedade para haver inclusão e frisou que o mundo não evoluiu mesmo estando no século XXI. 

“Eu era uma consultora que tinha agenda cheia de janeiro a janeiro. Quando eu transicionei fiquei sem nenhum cliente. Eu posso dizer que eu era muito boa no que eu fazia, estava pelo menos entre as 10 melhores, se não fosse entre as cinco. Eu perdi tudo e foi uma morte por invisibilização. É como se tivessem esquecido que eu existia, porque não sabem como lidar com uma pessoa transgênera”, afirmou. 

Formada em economia, mestre em administração de empresas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e consultora na área de recursos humanos e desenvolvimento gerencial de equipes de trabalho, ela contou na entrevista, que passou boa parte da vida sofrendo com os preconceitos que presenciou. “Chegaram a dizer que se eu não me identificasse (com o gênero masculino) eu iria para o inferno”, comentou. 

Letícia destacou que as políticas públicas são sempre bem-vindas para o setor, mas que não é o ponto de solução. Ela contou que é preciso ir a fundo para que haja uma mudança. “É uma abordagem que tem que ser na base estrutural, começando na educação infantil, passando pelo ensino médio, pelo ensino superior e o tempo inteiro bombardeando a cabeça das pessoas que a realidade não é aquela que elas estão vendo. O preto não é a quinta pessoa depois de ninguém e uma pessoa trans pode sim ter muitos cursos superiores e não estar nas esquinas vendendo o corpo, de forma honesta, para poder sobreviver porque ninguém lhe dá emprego”, relatou. 

A candidata à prefeita ainda argumentou que além de começar na educação das escolas, é necessário olhar para a coletividade. “Quando não olhamos para isso, a igualdade não importa. E então como fica os interesses dos demais? Eles não existem, são inviabilizados, e logo excluídos. É isso que a sociedade vem fazendo com a população pobre, com o preto e com a população LGBT”, reclamou.

A consultora ponderou que apesar das transformações da sociedade e do avanço da ciência, em questões de diferenças sociais, raciais e sexuais, pouco foi mudado. “Agora estamos no século XXI e parece que desceu tudo, não evoluímos em termos de uma educação que eduque o ser humano, e não eduque as meninas para serem meninas e os meninos para serem meninos. Ninguém nasce mulher, aprende-se a ser mulher. Ninguém nasce homem, também aprende a ser”, atestou. 

Mesmo com as dificuldades que passou, Letícia Lanz disse que conseguiu se superar e hoje vive uma vida tranquila. “Eu tive uma luta para manter a família quando eu transicionei. Primeiro, sem dinheiro, quem sustentou a casa foi minha companheira porque meu dinheiro acabou. Eu perdi tudo e tive que recomeçar na clínica. E hoje estou muito bem”, alegou. 

LGBTQI+ NAS ELEIÇÕES

A minoria, ou quase nada, das candidaturas LGBTQI+ em Curitiba representa essa população e reflete o cenário nacional da falta de inclusão dessas pessoas no cenário político. Na época das pré-candidaturas, segundo os dados do levantamento realizado pelo programa Voto com Orgulho, da Aliança Nacional LGBTQI+, esse segmento da sociedade representava apenas 0,1% dos que irão disputar cargos de vereador (a) e prefeito (a) neste ano, com 585. O PT (97), Psol (92)  e PDT (83) englobam os partidos que mais possuem candidatos LGBTQI+.

Reveja a entrevista de Letícia Lanz.

*Matéria feita pelo estagiário André Phelipe, com a supervisão de Raphaella Caçapava

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