Bolsonaro estancou a sangria?

Na sua média de uma declaração estapafúrdia por dia, Jair Bolsonaro desdenhou que acabou com a Operação Lava-Jato, pois não há mais corrupção no Governo Federal sob o comando dele, nas palavras do próprio. Como tudo que o presidente fala, reações diversas surgiram de todos os lados. Não entendo como há quem possa se surpreender com Bolsonaro dizer algo desse tipo, pois quem tem relações umbilicais com milicianos jamais vai tolerar qualquer tipo de operação de combate à corrupção perto de sua esfera de poder.

Fato é que, pela primeira vez em muito tempo, a narrativa pró-Bolsonaro ficou silenciada, surgindo apenas dois dias depois da fala do presidente. O discurso predominante nas redes sociais, arena onde o neofascismo ganha de lavada na estratégia e nas formas de comunicação sobre a direita “histórica” e o campo progressista, dessa vez foi protagonizado pela direita alinhada ao lavajatismo, ressuscitando figuras  em baixa no noticiário dos últimos dias, como Sérgio Moro e Deltan Dallagnol, assim como por políticos rompidos com o bolsonarismo ou que têm proximidade com o que um dia foi o núcleo duro do PSDB e do DEM.

Bolsonaro estancou a sangria? Imagem: Flickr/Foto: Isac Nóbrega/PR

Por ingenuidade ou não, esse episódio revelou que mesmo com a ascendência da figura de Bolsonaro como líder inconteste de um projeto de extrema direita, a pauta moralista que o elegeu tem vida própria e pode ser uma força decisiva pensando no tabuleiro de 2022.

Ainda que seus apoiadores tenham tentando minimizar a fala de Bolsonaro, apontando má-fé na interpretação da fala, é fato que o presidente saiu arranhado ao menos dessa vez. Apesar de sabermos que não depende diretamente de Bolsonaro o fim de uma operação como a Lava-Jato, ele buscou interferir de forma significativa para influenciar os rumos relativos à Lava-Jato.

Movendo-se pelo jogo institucional de forma a causar orgulho no ex-senador Romero Jucá, autor da célebre frase sobre “estancar a sangria” dando um golpe contra Dilma Rousseff para aplacar o furor do MPF sobre um governo de esquerda que abriu demais a guarda para corruptos notórios, Bolsonaro nomeou Augusto Aras para a PGR e este vem cumprindo exatamente o script recomendado por aliados do presidente, senão pelo próprio: fustigar a Lava-Jato, botar a força-tarefa no seu lugar e enfraquecer seus líderes. Não à toa Sérgio Moro e Deltan Dallagnol estão submersos esperando os próximos acontecimentos, e especulou-se até uma mudança do ex-superministro da Justiça para os EUA.

A tentativa de interferência política na Polícia Federal segue o mesmo roteiro, para minar outras frentes de investigações que afetem o presidente da República. Quando não há investigação, não há crime, logo, é fácil dizer que não há corrupção em um governo com um “engavetador-geral”, como nos tempos de FHC.

É evidente que quase todos hoje sabem os excessos cometidos pela Lava-Jato, sobretudo em relação ao ex-presidente Lula. Curiosamente, partiu de Bolsonaro o freio que o próprio Estado deveria assegurar. No entanto, ainda não é possível saber se Bolsonaro de fato conseguiu estancar a sangria, eliminando amarras e mecanismos de combate à corrupção que favorecerão seus aliados mais adiante, caso o MPF seja subserviente a Aras e ao próprio Bolsonaro. O que é possível conferir é que, mais uma vez, a esquerda segue assistindo a tudo, sem reação e posição à altura. A centro-direita agradece.

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