Precisamos conversar sobre racismo reverso

Recentemente a Magazine Luiza abriu um processo seletivo de trainee apenas para pessoas negras e, como era de se esperar, o homem brasileiro branco médio se viu atacado por não poder protagonizar um espaço, o que reacendeu as discussões sobre o famigerado racismo reverso. 

Eu relutei muito sobre escrever esse texto, uma vez que racismo reverso é uma das invenções mais criativas do sistema racista em que estamos incluídos. Quem reclama de racismo reverso reconhece a existência do racismo puro e simples, mas prefere ignorá-lo e só se manifestar quando a “consequência” dele o atinge. Atitude típica da branquitude. 

Assim, eu não poderia iniciar essa discussão sem deixar muito bem pontuado que o racismo existe, ele é real e afeta todas as pessoas não brancas que moram no Brasil e que possui políticas e ações específicas para manter essas pessoas nas piores situações possíveis de moradia, poder aquisitivo, autoestima, qualidade de vida e etc, culminando frequentemente no resultado morte. A necropolítica é real e o que chamamos de “guerra às drogas” é um instrumento pensado para matar e encarcerar pessoas pretas. Isso é racismo.

Não existe e nem poderia existir algo como um racismo reverso porque quando falamos em racismo estamos falando em estrutura de poder de uma raça sobre outra e, por isso., não existe um cenário em que pessoas negras tenham poder estrutural para oprimir pessoas brancas. 

Falar sobre racismo reverso é incomodo pra mim pois se trata de um tema que já devia ter sido superado há muito tempo, assim como o cabimento da lei de cotas (que não só cabe como está posta e dando resultados). O movimento negro, em suas mais diversas vertentes, está discutindo conceitos raciais muito mais complexos e pondo em prática projetos que salvam vidas, mas a pauta que ganha destaque a nível nacional é a inconformidade da branquitude com UM ÚNICO processo seletivo do qual não pode fazer parte. 

É bastante sintomático que pessoas brancas se sintam no direito de protestar (com argumentos que não se sustentam em si próprios) contra um processo seletivo que priorize pessoas negras quando a regra é justamente o contrário e quando as pessoas negras apontam a disparidade de raça no mercado de trabalho são taxadas de vitimistas e preguiçosas e colocadas como pessoas que não se esforçam o suficiente pra alcançar o sucesso num sistema meritocrático (que também não existe). 

Vejamos, exemplos de alguns grupos de pessoas aprovadas em processos seletivos para trainee: 

Itaú, 2019.

Ambev, 2017.

Santander, 2019.

A discussão sobre racismo reverso não é valida porque, caso existisse qualquer coisa do gênero, ainda precisaríamos combater o racismo primeiramente para que de pois voltássemos nossa atenção ao seu subproduto, o racismo reverso.

O racismo procura sempre buscar meios de se reinventar para que o sistema se mantenha como está e, dentre essas reinvenções, sugiram também os que alegam que o racismo pode ser praticado por qualquer pessoa contra qualquer pessoa, rejeitando o termo “racismo reverso”, mas alegando a existência da possibilidade de um racismo de pessoas pretas contra pessoas brancas. Por óbvio, e como já dito tanto nesse texto quanto em qualquer outra discussão séria sobre o tema, essa situação não se verifica uma vez que racismo seja uma relação de poder e dominação e que pessoas não brancas (pretas, amarelas, indígenas, e etc) não possuam condições de subjugar o grupo racial das pessoas brancas. 

Pessoas brancas podem sofrer uma sorte de ofensas e dificuldades na vida, mas nenhuma delas por conta raça, fator que é determinante desde o primeiro suspiro de vida das pessoas não brancas, uma vez que a nossa estrutura social tenha sido construída às custas da vida dessas pessoas não brancas.

A branquitude precisa, antes de qualquer outra coisa, se entender enquanto um grupo racializado (e não universal), bem como as implicações disso na construção social, para que, a partir disso possamos discutir as questões raciais com a seriedade que elas exigem e sem utilizar subterfúgios como o racismo reverso para atrapalhar as discussões. O meu desejo é que as pessoas (e instituições) brancas compreendam que não existe algo que se possa chamar de racismo reverso e emprenhem a mesma energia no combate ao racismo, um problema real e urgente. 

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