TRUMP PARTE PARA O TUDO OU NADA CONTRA A DEMOCRACIA NOS EUA

A cena de manifestantes pró-Trump invadindo o Capitólio, sede do Congresso dos EUA, nesta quarta-feira chocou o mundo. No Brasil, leva a um questionamento sobre o que será de nós nas próximas eleições presidenciais em 2022.

Não é de hoje que Donald Trump tenta minar a democracia nos Estados Unidos. É um roteiro que já foi muito bem desenhado por Steven Levistsky e Daniel Ziblatt no livro “Como as democracias morrem”.

Os autores afirmam que autocratas eleitos podem subverter a democracia aparelhando tribunais e agências neutras e usando-os como armas. Podem comprar a mídia ou intimidá-la para que se cale. Podem reescrever as regras da política para mudar o mando de campo e virar o jogo contra os oponentes.

Imagem: Reprodução/CNN

Trump tentou tudo isso. E falhou. Por isso partiu para o tudo ou nada contra a democracia dos Estados Unidos.

O Congresso se reuniu para confirmar a vitória de Joe Biden nas eleições americanas – procedimento formal que deveria ter ocorrido sem grandes emoções.

Acontece que Trump se recusou a aceitar a derrota nas urnas e discursou em Washington alegando fraude – que ele não conseguiu provar.

“Nós vamos marchar para o Capitólio e vamos apoiar nossos senadores e congressistas”, disse inflamando os manifestantes.

Pouco tempo depois do discurso, o Capitólio foi invadido.

Trata-se de um teatro político, uma tentativa de golpe de estado – como classificou um senador do partido de Trump – que certamente fracassará. Mas o presidente americano perdeu o controle da situação. O saldo, até o momento em que escrevo, é de pelo menos uma pessoa morta porque o presidente americano quis brincar de ditador com as instituições.

Joe Biden fez um pronunciamento durante as cenas de tentativa de golpe dignas de países latino-americanos que se desenrolavam em Washington.

“As palavras de um presidente importam. (…) As palavras de um presidente podem inspirar, na pior das hipóteses podem incitar”, ele disse.

Segundo Biden, a democracia nos EUA nunca foi tão atacada quanto nesta quarta-feira. Não é verdade. A invasão do Capitólio foi o desfecho de um roteiro que já estava em curso muito antes.

O cientista político Juan Linz elenca quatro sinais de alerta para reconhecer um autoritário: rejeição das regras democráticas; negação da legitimidade dos adversários; tolerância ou encorajamento da violência; e propensão a restringir liberdades civis, inclusive da imprensa.

Trump atende aos quatro critérios desde antes de ser eleito. Os EUA resolveram brincar com a sorte ao elegê-lo e agora colhem as consequências.

“A democracia é frágil. Precisa ser protegida. Imaginem o que as nossas crianças estão pensando ao ver essas cenas na televisão. Imaginem o resto do mundo”, disse Joe Biden em seu pronunciamento.

Não há dúvidas de que o que ocorreu nos Estados Unidos serve de alerta para todos os países do globo.

No Brasil, não há como não fazer um comparativo com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), fã de carteirinha de Trump.

Enquanto líderes de todo o mundo manifestaram preocupação com a situação nos Estados Unidos, o presidente brasileiro ficou em silêncio. Ele e o americano têm muito em comum.

No Brasil, Bolsonaro também disse, em 2018, que se recusaria a aceitar o resultado das eleições, a menos que saísse vitorioso. Depois de eleito, coloca em dúvida o processo eleitoral.

Foto: Marcos Corrêa/PR

Assim como Trump, Bolsonaro também investe na narrativa de fraude eleitoral e diz que tem provas de que foi eleito, na verdade, no primeiro turno. E assim como Trump, Bolsonaro também nunca conseguiu provar as alegações que faz.

Por aqui, Bolsonaro segue a mesma cartilha desenhada por Levitsky e Ziblatt como alerta. O presidente tenta aparelhar tribunais, agências e órgãos de controle. Ataca diariamente a imprensa. Inflama seus apoiadores contra as instituições democráticas.

Assim como Trump, Bolsonaro atende a praticamente todos os requisitos para ser considerado um líder autoritário. E gosta de copiar os passos do presidente dos EUA.

Cientistas e analistas políticos já projetam que Bolsonaro pode ter dificuldades de se reeleger em 2022. O país e as instituições estarão preparados para evitar uma tentativa de golpe?

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