MEU ENDEREÇO É VOCÊ

Eu temo olhar o teu olho e não me encontrar. 

Vai que agora não é mais minha casa, vai que tem gente nova morando e você esqueceu de me avisar? 

Ali, onde me abriguei tantas vezes da força de tudo que me toca e da aridez do medo que eu carrego por natureza, talvez eu não more mais. Sabe, amores não nascem com etílicos, talvez seja por isso que demos tão errado e traçamos um longo caminho até se acertar.


E a gente se acerta, nem você pode negar.
E sabe, por isso não escrevo nada novo, nem arrisco uma metáfora muito original pra te descrever ou explicar que teu sorriso é tão bonito que machuca. Ou dizer que eu me agarro nas suas verdades pra poder acreditar em mim. Deixei de escrever, porque me machucou quando percebi que você deixou de acreditar- seja lá no que eu queria que você acreditasse.


Evito novos versos pra não esquecer de quando antigamente você me tocava além tecido e marcava a pele, me engolia em pirofagias de euforia e suor. Se eu conseguir uma nova frase, eu morro seca e insignificante, misturada num acaso qualquer. Se eu fizer um texto inteiro, você esquece dos meus prazeres e de como eu fui inteira quando era com você.


Talvez não viva mais na sua nuca ou no seu pescoço as minhas promessas que passionalmente eu fiz, debruçada nos teus silêncios e teus suspiros, derramando minhas entregas. 

Então, eu só fecho meus olhos- os da alma também. 

Não para saber se você consegue me notar pensando no que poderia ser e não é, mas sim, para que um de nós acredite que o amor está aqui.


“Eu não vejo”, você diz com certezas utópicas.
Eu sangro, com certezas trincadas.


Como uma criança, tive medo de tentar mais um dia e mais uma vez e mais um segundo e mais um beijo e receber o resultado pesado da razão. Tanta gente vive ignorando a razão, mas eu sou submissa a ela- veja só- porque ela te mantém aqui. Só eu sei quantas vezes o pé ficou atrás sem nem mesmo permitir o primeiro passo- eu nunca me arrependi de caminhar até você.

Mas aí, cê ainda me pede para falar de amor, sentir e esperar pelo mesmo- só que ele não vem daí. Me faz acreditar que ele está palpável e sereno e nos dando coragem- mas não é contigo. Eu morro, em meio às certezas queimadas- porque eu só amo você. Me pede para abrir os olhos, tirar um dia ou dois para descansar, e eu me canso de buscar repouso longe do seu lábio inferior- onde você está?


Eu canso de tudo que não te tem, e desisto.

Eu sou desistente de tudo o que não te carrega.


Eu deságuo feito tempestade de olhos castanhos. Escrevo sobre o que só você pode entender. Almejo esse teu ombro, teus sonhos infantis, tua pele quente, teu sexo e teu desprezo. Eu aceito o que vier e pago o dobro.


Não quero mais usar meus subterfúgios pra dizer que não há calor em mim, que não há mais tempo. Desgasto, sem admitir que o tempo foi perdido. Que não estamos em casa quando estamos em nós.


Que somos tão jovens. 

Tão corretos. Tão bonitos.
Tão longes. Tão perto.
E tão sós.

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