UMA CARTA DE ESPERANÇA, OU NÃO

O ano de 2020 despertou em mim uma ilusão que talvez todo mundo criou: vamos evoluir com isso tudo. Eu vi propagandas de banco dizendo que depois dessa pandemia, iríamos aprender o valor do abraço, e acreditei por alguns dias. Tentei melhorar a alimentação e aprender crochê pela internet, e desisti porque a pandemia também era um momento de aprender sobre as nossas limitações e sobre nossos não-talentos.

Eu vi a substituição das mãos unidas no famoso final de ano do “hoje é um novo dia, de um novo tempo que começou”, por hologramas e campanhas de use máscara, fique em casa, e repetia como um mantra mental de que isso era só uma fase, que logo tudo iria voltar a ser como antes. Aprendi o significado de distanciamento social, higienização e fui obrigada a ouvir no grupo da família o termo “tratamento preventivo” e a ficar calada, pelo bem dos parentes. Eu aprendi a ser tolerante, afinal de contas. Eu vi os memes e ri de desespero. Eu uso álcool gel como se fosse hidratante. Por fim, percebi que a tal da evolução não iria chegar com a vacina e obviamente: eu me desesperei.

Me desesperei, porque o número de casos vem aumentando e pior, o número de mortes, e a situação está ficando cada vez mais comum. As pessoas não se comovem e eu não consigo entender como o sentimento humano pode se acostumar com o caos em tão pouco tempo.

A gente não está mais falando sobre as mães em seus lutos, os filhos chorando no caixão dos pais, daqueles que ficaram seus amores e parceiros, não estamos mais comovidos com os que não conseguiram se despedir e curar feridas. Agora a questão da pandemia é algo que “acontece mesmo”, e a grande preocupação está voltada sobre como as coisas mudaram e agora a gente pede de tudo no delivery, como o “novo normal” nos domina e o quanto o home office vai virar uma coisa comum- Deus me livre! Estamos falando de despedidas, mas não de mortes.

Estamos apenas nos despedindo dos pequenos luxos de rotina. E, sinceramente, me toca profundamente esse tipo de cenário porque a minha vida é toda baseada em despedidas, principalmente sobre as que eu não consegui fazer. É como se a pandemia tivesse ressaltando uma verdade tão crua da nossa existência, que é o fim, mas as pessoas estão mais preocupadas com suas viagens de final de ano que não aconteceram ano passado.

Contudo, ainda que diante de alguns discursos tão egoístas e rasos, eu entendo sinceramente o que leva alguns a focarem no lado mais fútil da pandemia enquanto outros sentem na pele a dor de perder quem ama.

O problema, é que o fim natural de tudo que começa, a gente sabe lidar. O fim de um ciclo, de uma carreira, de uma rotina, reinventar maneiras de educar filhos em casa ou de trabalhar longe do escritório. Agora quando eu falo do fim de uma pessoa que estava começando a vida e, por descuido de uma sociedade e de um governo negacionista, perdeu a vida e não vai se formar, conhecer a Praia do Rosa e nem beijar a pessoa amada, a gente fecha os olhos e busca anestesias mentais.

A ironia do destino, se é que posso chamar assim, foi descobrir que na verdade todos têm risco de morte e que os grupos de risco, no fundo, são todos os grupos. A gente poderia ter entendido nesse um ano de pandemia que todos precisam aprender a se relacionar e que ninguém é perfeito e normal, mas que o cuidado com o próximo é uma necessidade de saúde pública. Uma obrigação comum. Um direito e um dever inalienável.

O vírus é realmente desconhecido e a gente vem lidando com uma saúde pública saturada, uma economia destruída e um governo desgovernado e cheio de leite condensado na despensa. A gente continua lidando com desemprego, fome, pobreza e muita, mas muita dificuldade mesmo. Inflacionados, morrendo e sem perspectiva de muito sucesso até as próximas eleições (e talvez nem depois disso).

Mas seguimos aqui, com vias de vacinação em massa, fingindo que a pandemia acabou e presos nos mesmos limites de sempre: conviver. No fundo, não evoluímos. Só nos desesperamos, ainda que dissimulando a maioria das nossas neuroses e compulsões.

Por fim, não consigo fechar meus olhos e nem aceitar o adeus. Só consigo sentir o cansaço inevitável de tentar todos os dias encontrar algo bom em meio a tantos abismos.

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