NEM SÓ DE HÉTERO VIVE A HISTÓRIA – PARTE 02

Olá querides leitores e leitoras desse nosso Brasil plural e diverso. Continuamos hoje a nossa jornada para falar sobre personagens LGBTQIA+ importantes da nossa história e que nem sempre são lembrados. Semana passada falamos sobre a vida e genialidade de Alan Turing considerado pai da computação, leia aqui: https://wordpress.com/post/regradostercos.com.br/24208 e hoje vamos um pouco mais além e vamos falar sobre um cara muito militante e incisivo em seus posicionamentos, vamos lá?!

Bayard Rustin (1912-1987)

Late 1940s photo of Rustin with lute. Courtesy Estate of Bayard Rustin

Em uma era de total segregação, homofobia e diversas outras diferenças sociais, Bayard foi um grande militante de suas causas e das causas de tanta gente sem voz em sua época.

Em 1963, liderando uma marcha super importante e conhecida, Rustin entrou na história encarando duras críticas por ser quem era. Defendeu frequentemente os movimentos sociais pelos direitos civis, o socialismo e direitos gays. Um homem na interseção entre negritude e homossexualidade, que devotou sua vida a um propósito.

Nascido em West Chester, Pensilvânia, não tinha nenhum relacionamento com o pai desde cedo, foi educado para acreditar que seus avós maternos eram seus pais e que sua mãe biológica de 16 anos era sua irmã. Bayard conviveu desde muito cedo com líderes bem estabelecidos do movimento negro que tiveram influência direta mais tarde em seu ativismo.

Sua primeira faculdade foi a Universidade Wilberforce, uma instituição historicamente ocupada por pessoas negras de Ohio e administrada pela Igreja Metodista Episcopal Africana que seu avô frequentava. Ainda como universitário ele morou em Nova York, no bairro de Harlem, onde frequentou uma universidade comunitária e também entrou para a Jovem Liga Comunista. Durante a segunda guerra mundial Rustin se distanciou do comunismo e entrou para um partido agora socialista e passou a trabalhar com A. Philip Randolph e A.J. Muste. Juntos, realizaram um dos momentos mais significativos na história dos direitos civis.

O grupo estava decidido a atacar as forças armadas dos Estados Unidos por conta de discriminação racial, organizaram uma pequena marcha para exigir ao então presidente Franklin Roosevelt que banisse a segregação racial nos exércitos e publicasse a Ordem Executiva, que pedia a inclusão de trabalhadores negros na indústria de defesa do país.

Panfleto distribuído em 1941 com convocação para a Marcha de Washington (Foto: Biblioteca do Congresso do EUA | Reprodução)

O portal Black Past, afirma que Bayard foi preso aproximadamente 23 vezes ao longo de sua vida. E o incidente mais descrito em sua biografia é a prisão por ter sido pego transando com dois homens brancos em um carro, em 1953. E as consequências disso foi que suas enormes contribuições aos direitos civis enquanto homem negro e gay quase foram apagadas ou esquecidas.

A luta com Martin Luther King

Sua identidade enquanto homem negro e gay causou muitos problemas em sua militância durante a vida. Em 1957, Rustin estava formando relacionamentos com líderes proeminentes dos direitos civis, como o grande Martin Luther King Jr.

Rustin começou a trabalhar intimamente com King e em 1960 o grupo decidiu organizar um protesto paralelo à Convenção Nacional do Partido Democrata e atingindo diretamente a Adam Clayton Powell Jr, pastor e deputado de Nova York, que resolveu atacar a reputação de Rustin que já não era boa, com ameaças de exposição em relação à sua sexualidade e criando boatos de estar envolvido sexualmente com King caso não acabassem com os protestos.

Líderes do movimento pelos direitos civis reunidos em 1964 na Convenção Nacional do Partido Democrata: Rev. Ralph David Abernathy, Dr Martin Luther King Jr., Aaron E. Henry e Bayard Rustin (Foto: Getty Images) Revista Híbrida.

Rustin liderou greves em escolas, trabalhou como escritor e publicou diversos trabalho influentes, mas suas causas eram sempre diminuídas por conta de sua cor e orientação sexual. Nesta mesma época, já afastado do movimento de King e ficando apenas nos bastidores das marchas organizadas pelo grupo, Rustin começou a se apaixonar por Walter Neagle que hoje é executor e arquivista do seu patrimônio. Há relatos que foi Walter quem incentivou Rustin a defender mais abertamente os direitos LGBTQIA+ e a se aceitar melhor perante a sociedade.

“Eu penso que a comunidade gay tem a obrigação moral de fazer o que for possível para encorajar mais e mais gays a saírem do armário” – Bayard Rustin

Antes de falecer, aos 75 anos de idade, devido a um apêndice perfurado, sua última luta foi testemunhar em nome de um projeto de lei sobre os direitos LGBT no estado de Nova York. Rustin foi espancado, preso, desacreditado e ameaçado apenas por ser quem ele era, um homem ativista que lutava por integridade, direitos sociais e igualdade de direitos.

Infelizmente, levaria décadas para que suas contribuições fossem completamente reconhecidas.

Em 2013, ele se tornou um membro honorário no Hall da Fama do Departamento do Trabalho dos Estados Unidos. Foi postumamente premiado com a Medalha Presidencial da Liberdade pelo então presidente Barack Obama.

Um homem e muitas consequências em sua vida, ser militante de suas próprias causas trouxe Rustin para a história da humanidade como exemplo de luta e coragem, naquela época a truculência era ainda mais violenta e tudo girava em torno de repressão e mazela. Aqui hoje dêmos visibilidade para mais um personagem “desconhecido” das causas sociais e LGBTQIA+. Compartilhe essa série de relatos com seus amigos, fale mais sobre pessoas que brigaram para ter seu lugar e nos acompanhe para ler mais.

Até mais!

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