SER MULHER: O 11º MANDAMENTO

Eu sou jornalista há 10 anos, assessora de imprensa há 6 e sou mulher há 30.

De todas as coisas que eu sou, ser mulher sempre será a minha atividade mais antiga e exaustiva. Exaustiva, sim. Principalmente quando a gente cresce em um ambiente machista, como eu cresci. Principalmente quando a gente cresce em torno de mulheres muito fortes, mas que foram sufocadas pelo patriarcado, como é a realidade da minha família. Principalmente quando a gente opta por caminhos que são dominados, em sua maioria, por homens.

Dentro da minha experiência de vida, que não é tão longa, mas também não é tão curta- eu chamo essa fase de limbo– eu travei batalhas cotidianas para não me perder dentro da violência que o estereótipo sempre exerceu sobre mim. O estereótipo da mulher “bonitinha demais para ser inteligente” só perdeu para o bullying da adolescência do “nerd demais para ser bonita”. Porque eu cresci, sim, rodeada de pessoas que achavam que ou você é uma coisa, ou você é outra. Pessoas que deixam claro todos os dias que por mais longe que você tenha chego na sua carreira, nada nunca será o suficiente para esconder a vergonha de você não ter um filho aos 30 anos e não ter se casado.

Nesses anos de ofício feminino, aprendi que a liberdade ofende. Ser autônoma afetivamente, livre financeiramente e independente machuca os sentimentos mais profundos de quem nos quer numa gaiola ou quietinha no cantinho da sala. Ser autônoma afetivamente, livre financeiramente e independente, machuca os sentimentos mais profundos de quem nos quer numa gaiola ou quietinha no cantinho da sala. Mulheres expansivas incomodam.

Tiram o brio dos homens maravilhosos em seus pedestais, que não devem ser interrompidos e tampouco contrariados. Mulheres que decidem ser donas da sua natureza, morrem. No Brasil isso é o maior motivo para uma mulher ser morta diante dos filhos ou ser estuprada. Aí a gente cansa. Porque, no fundo, a gente não quer competir com ninguém. A gente só quer ter a paz de espírito de poder fazer o que a gente quiser, como quiser, a hora que quiser, sem ter que pedir permissão ao mundo por isso ou se explicar. Sem precisar ser morta ou violentada. Exatamente igual um homem livre.

A gente quer ter nossos corpos respeitados, espaço para contribuir intelectualmente na sociedade e quer igualdade de gênero em todos os setores. Não mais. Não menos. Igual.

Não é sobre competir ou tirar os homens de cena, é simplesmente sobre estarmos lado a lado, como tem que ser. A violência contra a mulher (psicológica e física) é abominada na bíblia, ainda que usada como argumento dos mais ignorantes. Jesus se anuncia, primeiramente, à uma mulher (Jo 20: 11-18) e coloca ao seu lado mulheres, com histórias que eram vergonhosas para época (não que Maria Madalena, apesar de seu papel essencial na Igreja, não sofra as piadinhas de ter sido prostituta, ainda que nunca ninguém tenha provado essa tese) e as enaltece, tira seus fardos, chama-as para sua caminhada não como serviçais, mas como discípulas. A gente encontra em grandes pregadores frases de apoio enaltecendo uma cultura arcaica de que a mulher serve os homens quando, na verdade, ela protagoniza todos os momentos em que eles estavam lá perdidos, sem saber o que fazer e vem uma mulher e direciona a situação.

Outro exemplo bíblico? O primeiro milagre de Jesus, onde o próprio obedece Maria, reconhecendo a autoridade e sabedoria da mesma (Jo 2:1-11). Tantos outros argumentos, com a mesma bíblia que violenta e tenta colocar a mulher em posições de inferioridade, podem ser contra atacados com mensagens de igualdade, amor e enaltecimento dessa criatura maravilhosa, digna e que foi distorcida ao decorrer da história.

Eu, como teóloga em formação, busco essa dignidade não somente para mim, mas para toda uma sociedade criada pelo amor e para o amor. Uma sociedade que hoje nos dá flores para poder nos estuprar com menos culpa amanhã. Uma sociedade que usa do mandamento do amor para justificar suas violências cotidianas em nós, que encaramos todos os dias o verdadeiro demônio do mundo: o machismo. Uma sociedade que não respeita o nosso direito de liberdade e não respeita nossas orientações sexuais, nossas escolhas de vida e tampouco nossos sentimentos.

Enquanto a disparidade de direitos, a violação de nossos corpos e a ideia de que a mulher deve e pode ser violentada existir, o amor nunca será realmente uma realidade. Enquanto eu existir serei resistente e buscarei em Deus forças para lutar pelo desejo que sei que faz parte de Seu projeto de salvação: amarmos uns aos outros, de verdade.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: