NEM SÓ DE HÉTERO VIVE A HISTÓRIA – PARTE 03: A SEXUALIDADE INDÍGENA OPRIMIDA

Olá querides leitores e leitoras desse nosso Brasil plural e diverso. Hoje iremos falar de história mais uma vez e iremos contar como que o assunto sexualidade sempre foi exposto de forma equivocada e, por muitas vezes, foi tratado de forma irresponsável e desumana pelos colonizadores que aqui chegaram.

Não é incorreto dizer que a homofobia chegou junto com as caravelas, e mantemos esse “hábito” até os dias de hoje. A sexualidade indígena foi extremamente apagada junto com vários costumes antigos que foram se perdendo durante o passar do tempo com base em conceitos colonizadores, ocidentais, coloniais e acima de tudo religiosos.

Foto: (Reprodução Instagram | @indigenasLGBTQ)Revista Híbrida

Na região onde hoje conhecemos como Maranhão, foi registrado o primeiro caso de homofobia contra um indígena brasileiro no início do século XVII na tribo dos Tupinambá, este episódio é narrado em uma carta do jesuíta Yves D’Évreux no livro “Viagem ao Norte do Brasil feita nos anos de 1613 e 1614” que conta a execução de um índio por meio da “colonização e purificação” “com requintes de crueldade” “ o mais sujo dos pecados”.

Tibira (como eram chamados os que não se adequavam ao papel tradicional masculino ocidental) foi executado com seu tronco amarrado na boca de um canhão que explodiu metade de seu corpo para o mar e deixou outra metade na terra. Em diversas outras etnias haviam registros de práticas homossexuais como os guaicurus, xambioás, nambiquaras, bororos e tikunas.

Os “two-spirit”

Na América do Norte, o papel dos tradicionais “two-spirit” (dois-espíritos) foi resgatado por índios LGBTQIA+ dos Estados Unidos e do Canadá, após um longo período de apagamento que começou durante a colonização e foi reforçado pelas próprias tribos, o que aconteceu de forma diferente em várias partes da América.

Os dois espíritos se tornou um movimento de resistência ao processo de colonização movimentando toda a América de formas diferentes e com atitudes também diversas tanto dos povos quanto dos colonizadores.

Foto: Reprodução revista Híbrida/Casal de indígenas norte-americanos dois-espíritos do povo Navajo

Os índios dois- espíritos desempenhavam papel político muito importante e sagrado em suas tribos, porque eram considerados capazes de transitar com facilidade nos mundos masculino e feminino. A real demonização das diversas orientações sexuais sempre existentes já que as comunidades indígenas na América do Norte enxergam o espectro da sexualidade de forma fluida e bastante ampla.

“Eles entendem a sexualidade como parte de um círculo onde estar masculino ou estar feminino são apenas duas opções, entre várias outras”

Estevão Fernandes, autor de “Existe índio gay?”

Foi exatamente por essa clara imposição de papéis opressores que a diversidade sexual indígena foi sufocada. Os indígenas sempre foram silenciados, seja em suas próprias culturas, seja em formas e modos de crenças e ações.

Não é comum que vejamos uma representatividade indígena LGBTQIA+ em papéis que não sejam de opressão e omissão, ainda temos diversos reflexos de uma extensa cultura heteronormativa que atingiu e atinge à todos independente de classe, cor, raça e gênero. Porém quando falamos de povos tradicionais isso fica ainda mais explícito de que nunca o índio foi tratado como dono de sua própria realidade, sua própria verdade e acima de tudo sua essência. Os povos tradicionais precisam estar em todas as áreas da sociedade, hoje em dia já temos algumas representatividades dentro da política, mas isso não é o bastante, se índio hetero já sofre preconceito, imagine o índio gay, ou de gênero diferente ao masculino e ou feminino.

As formas mais opressoras da humanidade sempre foram dadas por meio do silêncio, é comum que o opressor cale o oprimido para que a voz dele seja tão anulada que vai ter uma hora que ninguém mais irá ouvir. A história da América também foi contada e criada por LGBTQIA+, e se hoje não temos uma maior clareza da existência de povos nativos com sexualidade e gêneros diferentes é porque o silêncio funcionou de alguma forma e porque ainda estamos silenciados frente a atos ainda coloniais e obscuros da nossa história.

O que não podemos fazer é também deixar que o silêncio tome conta de nós, ainda é preciso gritar mais alto para que todas as pessoas sejam representadas dentro de suas singularidades sem que seja preciso se auto sabotar para caber dentro de caixinhas de personalidade e heteronormatividade pré programadas.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: