O AMOR É CONHECIMENTO

Outro dia achei um texto que escrevi com uns 20 anos. Eu falava de amor. Eu sempre achei que tinha direito de falar sobre amor. Que prepotente. No texto eu falava sobre o salto cego e sem medidas, a paixão visceral e sem responsabilidade, um entregar-me a ponto da minha pele ser arrancada dos músculos. Eu sempre amei assim, eu sempre achei que o amor precisava ser assim. Eu amei pessoas que usaram o amor como um modo de me violentar e cresci vendo amor onde não tinha. E eu sempre gostei demais de novelas mexicanas, tem isso também. Ler aquele texto me fez rir de pena, sinceramente falando. Porque a vida passou, porque as pessoas passaram e porque, felizmente, eu não sou mais aquela pessoa.

Eu acho que hoje eu até concordaria com a frase do texto que começava “o amor é coragem”, mas eu acrescentaria “o amor é conhecimento”. Deixei para trás essa coisa de me jogar no meio do incêndio e ver no que dá, sabendo que talvez não dê em nada. Eu saí da competição pessoal de provar que eu posso ter quem eu quiser, para valorizar a certeza de que eu tenho tudo aquilo que eu preciso em mim. Eu aprendi a me valorizar a ponto de entender a importância de ser uma criatura complexa, única e com o direito de ser amada plenamente. Essa loucura toda pode funcionar quando você só tem 20 anos e bem menos responsabilidades, mas o amor precisa de coisas mais sólidas para sobreviver. Eu preciso de coisas mais sólidas.

Preciso ser conhecida e admirada, respeitada por minhas raízes e lutas.  As paixões nos jogam de abismos sem paraquedas e nos dão o frio na barriga, mas o amor nos dá chão, nos solidifica, estrutura nossa coluna quando o peso é demasiado. E quando falo de conhecimento, lembro de Santo Agostinho que dizia que para amar algo é preciso conhecê-lo. Não pode ser mais verdade. Até porque, depois que esse frio todo na barriga passa, é só o amor que nos faz perdoar todos os dias e insistir todos os dias. Só ele nos dá as respostas quando a dúvida vem. O amor nos ajuda a sobreviver à aridez que é a decepção cotidiana com o outro, é ele quem nos lembra que não somos donos de ninguém, mas podemos ser companhia de caminhada. Também é ele que nos alerta a hora de colocar um fim em histórias que já não nos cabem mais.

E pode ser que, mesmo com os planos e as tabelas em dia, você só se queime, só se perca, se machuque. Mesmo conhecendo cada detalhe, você talvez ainda esteja só. Pode ser que você ame de maneira unilateral. E tudo bem. A vida é sobre isso também. Mas a gente tem que aprender que é o conhecimento que nos leva até o mergulho interno, ao amor próprio, ao auto cuidado. Por mais que um coração quebrado seja doloroso, não se conhecer pode ser mortal.  Quem não se conhece, não entende que a vida é ciclo e que existem pessoas que não são a chegada, elas são o caminho.

Quando não usamos o pensamento lógico nas relações, acabamos escravos de emoções e, por fim, não estamos amando, só estamos com medo e muito possivelmente doentes. A gente não pode esquecer que todos nós somos versões únicas das coisas que saíram da caixa de Pandora. Quando entendemos que o amor precisa ser a união equilibrada do Eros e da Philia, de forma que antes da paixão e da carne, haja sintonia, encontramos a aceitação, respeito e vivemos a acolhida. Chegamos muito perto de entender o amor.

Olho distante a menina que dizia “saltem! Se joguem! Vamos amar até os ossos quebrarem!” e mais do que isso: amava dessa forma. Eu aceno. Hoje é um passado muito distante.  Eu precisei acreditar nessa versão ignorante de amor para chegar até aqui. Eu precisei dos ossos quebrados e os dentes arrebentados e meus cacos espalhados. Eu precisei me conhecer. E tudo bem, foi o meu caminho. Hoje, sento e me sirvo de uma boa xícara de café e sussurro para dentro desse coração emocionado que ainda bate em mim: “calma garoto, a gente já não tem mais necessidade disso”.

O amor, enfim, se tornou meu amigo.

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