A IGREJA QUE NÃO CUMPRE SEU PAPEL DE BOA-NOVA

Ontem, segunda-feira (15), o Vaticano confirmou o posicionamento do pontífice Francisco que se declarou favorável à união civil entre homossexuais, mas enfatizou que a declaração do Papa não altera o posicionamento da Igreja: ela considera relações entre pessoas do mesmo sexo uma “escolha” pecaminosa, não reconhecendo o sacramento do casamento para esses indivíduos e proibindo que sacerdotes concedam até mesmo bênçãos para esses casais. Ainda que confirme o posicionamento de Francisco sobre apoiar que o Estado subsidie legalmente casais homoafetivos, a Igreja se mantém dogmática e não abre brechas para nenhum tipo de discurso diferente. “Deus não abençoa e não pode abençoar o pecado”, declara a Santa Sé.

Em contrapartida das declarações homofóbicas da Igreja, um número crescente de paróquias expressaram o desejo de conceder bênçãos no lugar do sacramento, como sinal de boas vindas aos gays e lésbicas católicos. Mas a resposta seguiu negativa, ainda que o Vaticano reconheça que esses pedidos eram motivados por um desejo sincero de acompanhar e fazer com que homossexuais se sentissem amados. Justifica seu posicionamento como um lembrete da verdade do rito litúrgico. Rito esse, que ao consagrar o corpo e sangue de Cristo afirma: tomai e comei TODOS. Mas esse todo não é tão abrangente assim.

E esse texto era para ser imparcial, como a profissão que escolhi me pede.

Mas eu, como teóloga em formação, como católica por escolha, não consigo me abster da sensação de hipocrisia. A mesma Igreja que se chama de mãe, nega a bênção aos seus filhos. Seus seguidores fiéis argumentam com passagens bíblicas de uma cultura que não representa o Brasil e é tirada de contexto para justificar a homofobia tradicional de nossa sociedade. A Igreja fala como se fosse distante de uma realidade que, na verdade, lida todos os dias dentro de suas congregações. Segrega, exatamente como faziam os povos judaicos antes de Cristo, este, que seria o primeiro a conceder não somente a bênção, mas chamar para o Reino aqueles que são perseguidos porque buscam a justiça (Mt 5:10). E quando se fala de justiça na Bíblia, devemos ressaltar que não há tradução literal para a língua latina do conceito de justiça hebraico. Dizia-se justiça, com substantivos que se referem à ordem criada, ordenadora das justas relações entre os homens, e ao comportamento justo e reto, conforme a essa ordem. Ou seja, todos, em suas realidades, devem ser tratados igualitariamente e recebendo o mesmo tratamento perante a lei- de Deus e dos homens.

E se essa justiça pede que sejamos todos olhados de forma nivelada, sem diferenças, como filhos do mesmo Pai, pergunto: porque apenas uma parcela não merece ser abençoada? A Igreja que considera o homossexualismo um pecado tão abominável, dá a benção para criminosos e os redime diante de qualquer vestígio de arrependimento. E eu falo de estupradores, assassinos e tantos outros crimes graves contra a vida e a tão defendida moral. Mas quem ama uma pessoa do mesmo sexo, não é digna de nenhum tipo de bendição. Por outro lado, os respeitosos maridos que batem em suas esposas, são adúlteros, violentam suas crianças dentro de seus lares e vão à missa copiosamente todos os domingos, esses podem participar do banquete do Senhor. Mas os gays, que buscam construir suas famílias com dignidade e dentro do seio da Igreja, não. Não têm espaço, não têm acolhida e são tidas como algo que não deve ter vínculo espiritual com Deus, apenas ser reconhecida pela lei do Estado. Mas sejam generosos, afinal, somos cristãos.

A Igreja não segue o Evangelho que é uma declaração de amor e que chama para perto, “vinde à mim” (Mt 11:28), não anuncia a boa-nova e se coloca em posição contrária da materna, sendo no final das contas mais uma algoz. Proíbe seus sacerdotes de exercerem seus papéis de serviço ao povo e sustenta a realidade machista ao qual são expostos todos os dias. Esse tipo de decisão intransigente, preconceituosa, não afeta apenas os gays que querem se casar. Ela afeta jovens que não podem se abrir para suas famílias e se suicidam por não se sentirem acolhidos, respeitados e o mais grave: não se sentirem amados. É esse tipo de declaração que tira pessoas de seus lares, por medo do julgamento. Que obriga que muitos vivam em peles que não os identificam. Esse tipo de “nota oficial” é argumento para a violência, não só física, mas verbal, afetiva, comportamental. É triste. Fazer alguém acreditar que não é digno de respeito e amor é uma das maiores corrupções que se pode provocar em um ser humano. É pecado. É assasinato.

Mas seguimos aqui, ouvindo os líderes que deveriam representar um Cristo que nos enviou um Espírito de liberdade (Cor 3:17), espalharem mais discursos de superioridade enquanto cometem seus delitos espirituais de maneira respeitosa, em seus altares, dentro de seus privilégios que a Igreja lhes proporciona. Não conhecem a realidade que depredam e ainda se julgam dignos de serem representantes de algo que está acima de qualquer lei que eles mesmos criem.

E esse texto era para ser imparcial, como a minha profissão exige.

Mas ele só tem a intenção de dizer uma coisa, que a minha fé exige mais ainda: se eles não os acolhem, Deus o faz. Permaneçam crentes no amor que vem do céu. Todos são dignos. Sigam firmes no amor que é de todos. Nenhum homem jamais será capaz de quebrar esse laço entre o Pai e suas criaturas desejadas. Amadas.

Seguimos unidos rumo ao céu. Afinal, é de lá que toda bênção verdadeira vem.

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