HOJE EU FALEI DO TEMPO

Eu sempre tive a sensação de que o tempo é um desgaste físico, que vai além da física. Eu sei, é difícil de me entender. Mas eu vejo o tempo escapar por entre meus dedos, como se fosse uma areia movediça, pronta para me engolir. Mas não engole. Ele me deixa agonizar e agonizar e pedir socorro e pedir socorro. E aí, eu tô sozinha de novo. O tempo que tange o agora e não revela o depois, nos pesa com o que foi. E quase tudo se foi e está indo, o tempo todo. Ontem eu precisei controlar meu choro, porque não há tempo para choro agora. Mas há tempo para construir e correr e correr e correr e perder o ar, porque eu tenho medo de estar perdendo mais tempo do que eu já perdi até aqui. Tenho medo de ter amado menos do que podia, porque eu precisava chegar às 8h no trabalho. Medo de ter cortado o assunto mais importante da minha vida, porque eu iria perder o voo se ficasse mais quinze minutos. Eu tenho medo de ter vivido menos, porque precisava de mais tempo para viver o instante.

E aí a vida é isso, não? O tempo que a gente não recupera.

A vida se torna essa lacuna entre o nascer e morrer, fazendo disso uma trindade: a vida, o tempo e a morte. Em nome da vida, do tempo e da morte, eu dobro meus joelhos perante a minha história, porque é essa a oração que me representa. Eu coloco nos altares a trajetória dos que me precederam para poder me sentir pertencente e digna. Mas os que me precederam também se foram e se perderam no tempo, nessa lacuna enorme e que não tem um horizonte de referência. O tempo é o oceano dos medos e das certezas frágeis. Será que estou perdendo tempo ao me submeter tanto ao que os outros querem, esperam e precisam? Será que eu vou envelhecer aqui, com esses tecidos enroscados em minha pele, como se fossem âncoras que não me permitem sair desse lugar estático e atemporal? Eu entrei em um planeta onde os segundos são horas em outra realidade, e não notei?

Eu abro mais uma garrafa de vinho, eu como mais uma comida qualquer, eu fumo mais um cigarro que achei na gaveta de meias. Eu morro. Lentamente e sem hora marcada. Porque a vida se tornou esses minutos e horas e anos e calendários que eu não acompanhei. E tudo que eu construí, não resiste ao tempo. E tudo o que eu fui, já não me descreve agora. E todo meu amor, que eu sublimei e sangrei, agora fica no fundo de um copo vazio. Beberico das minhas memórias todos os dias, vezes com culpa, vezes com cansaço, vezes com orgulho. O tempo poderia ser meu amigo, mas nem sempre ficamos confortáveis na mesma sala. E quando digo “eu te amei todo o tempo”, por favor, olhe em meus olhos e veja os ponteiros de um relógio que nos acompanhou durante quase a vida toda. Porque você é quase a minha vida toda. E ainda será quando o tempo nos consumir e virarmos a poeira mais fina que não será notada em nenhum tempo ou espaço.

E vou olhando o entardecer dos dias, todo dia, sentindo que amanhã talvez eu consiga fazer as pazes comigo, com meus altares, com a vida e a morte e o tempo, com as minhas trindades. Sigo aqui, nos desgastes físicos que vão além da física. E o tempo segue aqui, tocando todos nós como um tecido fino de esperança e sorte. Nos vemos no final, se houver tempo para isso.

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