TUDO SOB CONTROLE

Eu estou há duas semanas dizendo que minha vida está sob controle. Mesmo que a minha tese me faça eu sentir que sou a pessoa mais ignorante do mundo, mesmo que eu não tenha conseguido dar o meu melhor no meu trabalho e mesmo não sendo a melhor pessoa do planeta para quem eu amo.

Mas, está tudo sob controle.

Mesmo eu comendo nas horas erradas, estando mais sedentária do que nunca e que meu cabelo precise de um corte, mas eu não consigo coragem para ir ao salão e ganhar um bom corte e uma possível covid.

Está tudo bem, tudo sob controle.

Decidi tomar esse posicionamento, porque reclamar desse carrinho de rolimã sem freios que eu vivo já não estava mais dando conta do que eu sinto. Na terapia eu recebo um olhar de compreensão da minha psicóloga dizendo que todo mundo está meio perdido. A minha melhor amiga se sente perdida. As pessoas ao meu redor andam feito barata depois do spray de veneno em suas antenas. Nenhum livro, nenhuma teoria, nada ameniza essa sensação de que eu estou com medo. De que todo mundo está sozinho. De que qualquer neurose minha não vai mais ter cura.

Mas aí, hoje pela manhã, minha avó pegou um monte de boletos que a gente tem que pagar – porque as contas não estão nem aí se você se sente perdido, se você alcançou o nirvana ou se você está buscando novos sentidos na vida- e começou a falar sobre elas. É a luz, é a água, é o telefone… Por fim, ela disse “ainda bem que a gente tem Netflix e todas as coisas em dia”. Pois é. Minha avó não se sente perdida, não se sente insegura, não se sente incapaz, porque está tudo em dia e ela tem todos os streamings possíveis na sua televisão de 55 polegadas. E ela sente a paz de espírito de ter passado por todas essas questões e grandes viagens emocionais que eu ando tendo, porque agora, ela sente que está tudo em dia e ela pode ver os discursos do Lula na sua super televisão de 55 polegadas. E os dias que decorrem, conta após conta, pandemia após pandemia, estão bem, estão em dia e ela tem os filmes da Disney na palma da mão, em sua super TV grandona. E ela vem vivendo cada dia como se fosse único, porque logo a vacina vai chegar, não no meu tempo, não no seu e nem no dela. Vai ser no dia certo. Enquanto isso, pipoquinha e filme. Sem pressa. Sem neura.

Eu, definitivamente, morro de orgulho de Dona Maria, mas a invejo. Juro.

Porque, contrário dela, agora eu tô aqui, olhando pela janela e pensando que muitas pessoas não estão em dia, porque a economia está um caos, os casos de desemprego crescendo, a vida sendo violentada por falta de consideração de uma parcela da sociedade que não tem empatia, as pessoas estão enterrando seus familiares dias antes do dia certo, alguns estão deixando seus boletos atrasarem ou nunca serem pagos e eu tô no meio do caos. A Dona Maria também está, mas ela é resiliente. Eu preciso de 54 para chegar nesse nível, mas eu tenho pressa. Mesmo que aqui, nessa casa, esteja tudo em dia. Mesmo que os boletos aqui, nessa casa, estejam pagos. Mesmo que no braço da mulher mais importante do meu mundo já tenha sido aplicada a primeira dose da vacina. Da esperança.

E esse texto era para nos trazer paz e um bocado de coisas boas. Mas me perdoem. Anda tudo confuso demais, complicado demais, eu ando desatenta e ansiosa. Eu faço jejum, eu rezo aos deuses, eu já li todos os livros que eu precisava ler para minha tese. Eu pago os boletos. Eu tento me manter em dia. Porque, um dia, talvez a gente possa voltar a chorar nos ombros uns dos outros. Por enquanto, é só um bocado de medo, solidão e pó. E tudo bem. Pipoquinha e filme por enquanto.

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