O BBB21 E A DOR QUE NÃO DÓI NA GENTE

O Brasil esperava ansioso por um momento de alienação nesta segunda-feira (5) ao assistir BBB21, mas ao invés disso, o que vimos foi uma aula prática sobre racismo. O professor João Luiz aproveitou uma dinâmica ao vivo para desabafar sobre um caso de racismo que presenciou com o sertanejo Rodolfo.

Confesso que, como ainda tenho um pouco de fé na humanidade, esperava uma imediata retratação de Rodolfo e um pedido de desculpas. E só. Ao invés disso, o que assistimos nesta segunda-feira foi um suco de Brasil: o cantor reforçou seu posicionamento racista, disse que não é racista porque tem parentes negros, disse que o Brasil é cheio de mimimi e, como se não bastasse, também disse que ele mesmo já foi zoado por ter canelas finas.

O comportamento de Rodolfo, infelizmente, não é uma exceção. O cantor diz que quer aprender mais sobre esses temas, mas quando tem oportunidade para isso não quer ouvir as críticas sobre sua atitude. E isso é muito comum. Não só quando se trata de racismo. O mesmo acontece quando apontamos comportamentos machistas, quando apontamos comportamentos homofóbicos e assim por diante.

O comentário de Rodolfo pode ter parecido inofensivo a primeira vista por muitos de nós, brancos, que assistimos ao programa. Mas no segundo em que João se disse incomodado e disse ter sentido aquilo como violência racial, nossa obrigação é uma só: parar e escutar. Só isso. Não tem que justificar. Não tem que pesar o contexto da brincadeira.

A fala de Rodolfo sobre o cabelo de João não ocorreu em um contexto de brincadeira de um reality show. Ela ocorre em um contexto em que dois em cada três presos no Brasil são negros, segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Em um contexto em que 70% da população abaixo da linha da pobreza se identifica como preta ou parda, segundo a Síntese dos Indicadores Sociais do IBGE. Em um contexto em que mais de 75% das vítimas de homicídios são negras, segundo o Atlas da Violência de 2018.

Dizer que João ter ficado incomodado é mimimi é a prova de quanto o racismo no Brasil é estrutural. É esnobar a dor que não dói na gente, mas que é resultado de um contexto social que torna o nosso país um lugar muito pior para se viver.

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