UMA CARTA À SOLIDÃO

A solidão é um lugar espaçoso onde estico minhas pernas e me sinto em casa.

É uma ampla sala cheia de um vazio que não grita, não sangra, não tem espasmos. A solidão tem dois quartos abarrotados de coisas que eu deixei para trás, deixei de lado, deixei para nunca mais. É do tamanho do meu antebraço esquerdo, mas cabe um caminhão que volta e meia me atropela carregado de verdades e me quebra um osso. A solidão se tornou uma amiga, um cômodo na minha casa, uma visita constante e bem-vinda.

A solidão é um conforto que eu não sei mais como abandonar. Eu abro a porta, deixo um pouco de ar entrar e volto. Volto porque na solidão não me vejo sendo cobrada, anulada, diminuída pelo excesso dos outros. Aqui, nessa ilha, ninguém diz se posso ou não ouvir Renato, amar Caetano e escrever sobre amor. Aqui sou dona do som e das cores. A solidão é do tom de uma sala de cirurgia onde nossas maiores cicatrizes esvaem dia após dia para nos lembrar que é preciso primeiro se curar para poder pensar em colocar alguém nesse ambiente esterilizado de arrependimentos. A solidão me dá forças para olhar para dentro, para o mais fundo e entender que a mágoa é um tempo que o coração pede para gente começar a cuidar dos limites, parar de tentar ser mais o tempo todo, parar. Apenas parar.

A solidão me construiu aos poucos, fez do meu amor um edifício de 13 andares. A solidão me acorda nas noites mais ansiosas e me sussurra aos ouvidos que ainda não acabou. Ela me faz ninar em seus braços como um bebê que descobriu o medo. A solidão me tira a roupa, me ultrapassa os órgãos e não me pede desculpas. Não me desinflama, não me sustenta, tampouco me abriga. Sozinha, sigo me perdoando para poder entender o que acontece do lado de fora desse labirinto que me encontro agora. Sozinha, grito no escuro dessa sala enorme onde estico minhas pernas, me sinto em casa e nada te toca. Nada me convence. Nada me faz curvar a ponto de amar profundamente o que quase ninguém mais ama. A solidão é uma certeza que eu já não consigo mais ultrapassar.

É um quadro sozinho na parede.

É uma vida que anda ao seu lado e você não sente.

Você não vê. Você não suporta.

Eu estou suportando até aqui.

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