CINQUENTA MINUTOS DE FLUTUAÇÃO E PARANOIA

Ganhei do meu marido de presente de aniversário uma sessão de 50 minutos em uma cabine de flutuação. A ideia é ficar esse tempo flutuando em uma réplica da água do Mar Mediterrâneo ouvindo uma música relaxante enquanto rola uma sessão de cromoterapia na cabine. Super relaxante. Bom, a ideia tem tudo pra ser relaxante. Mas eu sofro de ansiedade.

A moça mandou ficar com a cabeça pra esse lado. Tá. Mas e se eu cochilar e acabar do outro lado? É perigoso? Meu Deus, o meu cabelo pode prender ali naquelas gradinhas. E se eu ficar careca?

É pra não pensar em nada, Kelli. Pense em nada.

Cinco minutos pensando em não pensar em nada.

Essa cromoterapia tá atrapalhando meu cochilo. Essa água salgada tá fazendo minha cutícula arder porque eu tirei um bife fazendo a unha.

Kelli, que caralho. Não é pra pensar em nada. Concentra na respiração.

Meu Deus, esse lugar é fechado e o ar tá muito quente. Não tô conseguindo respirar direito. Será que eu sou claustrofóbica? Ai, que ideia burra vir aqui. Bom, tem o botão vermelho pra chamar ajuda. Puta merda, eu tranquei a porta da sala, a moça não vai conseguir entrar. Ela deve ter cópia da chave né. Mas e se ela demorar pra achar? E se tiver que chamar alguém? E se tudo isso demorar? Acho que eu vou morrer aqui sem ar.

O Erick apagou a luz da cromoterapia. Agora eu vou conseguir dormir. Nossa, tá bem escuro. Não tem como saber onde eu tô. E se eu estiver no lado que não é pra estar?

Encosta a cabeça em uma das extremidades.

Meu Deus e se esse for o lado que puxa o cabelo? Como que eu vou saber? Eu não enxergo!

Kelli, é pra não pensar em nada.

Cinco minutos pensado em não pensar em nada.

Nossa, tô com fome. É verdade que água dá fome, né. Devia ter almoçado antes de vir. Mas será que tem problema vir de barriga cheia? A moça não disse nada. Então não deve ter né. Eu devia ter comido. Eu tô flutuando, não tô mergulhando. Não deve ter problema.

Cara, eu não tô sentindo minhas pernas. Isso não deve ser normal não. Vou tentar mexer. Droga, agora movimentei a água e tô girando. E se eu for parar do lado que não é pra ficar? A porta tá trancada, ninguém vai conseguir me ajudar.

Que demora isso aqui né. Acho que já passou o tempo. Tô meio agoniada, não acaba nunca. Será que fecharam e esqueceram que a gente tá aqui? Eu vou ter que ficar aqui até segunda? Cara, eu tô com fome.

Puts, eu não vi secador de cabelo aqui. Eu nem trouxe escova. Como que eu vou fazer pra ir embora? Eles deviam avisar que tinha que trazer. Mas eu também tinha que ter pensado nisso né. Não no secador,  ninguém sai com secador na bolsa. Isso eles tinham que avisar. Mas a escova, né. Eu não vou usar escova coletiva. E se eu pego piolho? Meu  cabelo tá enorme, eu não quero ter que cortar. Puta merda, eu não passei condicionador ontem porque eu tava tentando enrolar o cabelo. Vai virar um ninho. Será que esse sal todo faz mal?

Kelli, sem pensar. Que inferno. Tenta cochilar, você é boa nisso.

Meu ouvido tá coçando. Se eu coçar será que vai entrar água? Acho que não né. Tem protetor de ouvido pra isso. Mas se eu mexer talvez entre água. Imagina que saco ficar com infecção no ouvido? Não vou coçar não.

Respira devagar que a moça disse que ajuda a relaxar. É bem abafado aqui, né? Que sessão eterna, eu tô com fome.

A música para. A sessão acabou.

Eu não sei de que lado eu tô. Tá escuro. Eles deviam ascender a luz. Como que sai daqui? Tô nervosa. Engoli água salgada. Eca. Passei a mão no olho. Tá ardendo. ACHEI A PORTA. Graças a Deus!

– Como foi meu amor?, perguntou meu marido.

– Nossa, super relaxante. Adorei.

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