BRASIL ENTRA NA “ZONA VERMELHA” NO RANKING MUNDIAL DE LIBERDADE DE IMPRENSA

O Brasil caiu quatro posições e entrou na chamada “zona vermelha”, passando a integrar a parcela classificada como “difícil” no ranking mundial de liberdade de imprensa. O país ocupa hoje a 111ª posição no ranking. As informações são da ONG Repórteres Sem Fronteiras, que avalia a cada ano a situação da liberdade de imprensa em 180 países e territórios.

Segundo a ONG, insultos, estigmatização e orquestração de humilhações públicas de jornalistas se tornaram a marca registrada do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), de sua família e de pessoas próximas a ele. O Brasil está acompanhado na “zona vermelha” por países como a Índia (142º), o México (143º) e a Rússia (150º, -1), que usou seu aparato repressivo para limitar a cobertura pela mídia de manifestações ligadas ao opositor Alexeï Navalny.

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A China (177º), que continua a elevar a censura, a vigilância e a propaganda na Internet a níveis sem precedentes, mantém-se, por sua vez, estável na zona mais crítica do Ranking, aquela que aparece em preto no mapa mundial da liberdade de imprensa. Logo em seguida, vem o habitual trio dos piores países totalitários, que ocupam as últimas posições: o Turcomenistão (178º, +1) e a Coreia do Norte (179º, +1), no continente asiático, e a Eritreia (180º, -2), na África, que mantêm o controle absoluto sobre as informações. 

Pelo quinto ano consecutivo, a Noruega aparece em primeiro lugar no Ranking, embora os meios de comunicação do país tenham destacado a falta de acesso a informações públicas sobre a pandemia. A Finlândia mantém o segundo lugar, enquanto a Suécia (3º, +1) recupera o terceiro, perdido no ano passado para a Dinamarca (4º, -1). 

Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa mostra que o exercício do jornalismo está gravemente comprometido em 73 dos 180 países do Ranking elaborado pela RSF e restringido em outros 59, num total de 73% dos países avaliados. Esses dados correspondem ao número de países classificados em vermelho ou preto no mapa mundial da liberdade de imprensa, ou seja, aqueles em que o jornalismo se encontra em uma “situação difícil” ou “grave”, e aqueles classificados na zona laranja, onde o exercício da profissão é considerado “sensível”.

O controle do jornalismo é revelado pelos dados do Ranking, que mede as restrições de acesso e os entraves à cobertura jornalística. A RSF registrou uma flagrante deterioração deste indicador no período. Os jornalistas estão limitados no acesso tanto ao campo quanto às fontes de informação, por conta da crise sanitária ou tendo ela como pretexto.

O barômetro Edelman Trust 2021 revela uma preocupante desconfiança pública em relação aos jornalistas: 59% dos entrevistados em 28 países acreditam que os jornalistas tentam deliberadamente enganar o público, divulgando informações que sabem ser falsas. No entanto, o rigor e o pluralismo jornalísticos permitem combater a desinformação e as “infodemias”, ou seja, os boatos e as manipulações de informação.

Liberdade de imprensa na América Latina

Segundo a RSF, a crise do coronavírus desempenhou um papel na aceleração da censura na América Latina e criou sérias dificuldades de acesso às informações sobre o manejo da epidemia pelos governos da região. Essas restrições resultaram em uma deterioração espetacular do indicador “Transparência”, que mede as dificuldades dos jornalistas no acesso à informação.

No Brasil, o acesso aos números oficiais sobre a epidemia tornou-se extremamente complexo devido à falta de transparência do governo de Jair Bolsonaro, que tentou por todos os meios minimizar a escala da pandemia, gerando inúmeras tensões entre as autoridades e os meios de comunicação nacionais.

Em El Salvador (82º), país que registra uma das maiores quedas no Ranking de 2021, o trabalho dos jornalistas encarregados de cobrir a pandemia também está sendo muito dificultado: confisco de material jornalístico pela polícia, proibição de acesso a espaços públicos, falta de transparência no acesso às informações públicas, recusa de governantes em responder a perguntas sobre o coronavírus em coletivas de imprensa, ou mesmo proibição de entrevistas com representantes de Estado sobre o assunto.

Práticas de obstrução semelhantes também foram observadas na Guatemala (116º), onde o presidente Alejandro Giammattei sugeriu “colocar os meios de comunicação em quarentena”, ou ainda no Equador (96º).

Diante da pandemia, a atitude de negação adotada por diversos dirigentes autoritários, como Daniel Ortega da Nicarágua (121º), Juan Orlando Hernández de Honduras (151º) e Nicolás Maduro na Venezuela (148º), tornou a tarefa dos meios de comunicação especialmente difícil. Estes últimos aproveitaram a onda de choque causada pela crise para fortalecer seu arsenal de censura e complicar ainda mais o trabalho informativo da imprensa independente.

Assim, os jornalistas foram publicamente acusados de superestimar a gravidade da crise sanitária e de semear o pânico na esfera pública. Aqueles que ousaram questionar a resposta oficial das autoridades para combater a pandemia foram detidos, acusados de cometer “terrorismo de desinformação” e, às vezes, presos, como o jornalista independente venezuelano Darvinson Rojas, que havia, em um tweet, questionado a credibilidade dos números oficiais.

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