ONDE FOI PARAR A LITURGIA?

O brasileiro está se acostumando a ver na Presidência da República a personificação do tio do pavê. Começou com uma fala polêmica aqui, um palavrão ali, que acabou transformando uma reunião ministerial em conteúdo impróprio para crianças por causa da linguagem usada pelo presidente Jair Bolsonaro. E a cada dia descemos um pouco mais nesse poço que parece não ter fundo.

Neste fim de semana, o presidente da República se deixou fotografar – ou melhor, posou para foto – ao lado de um cartaz com a mensagem “CPF cancelado”, algo que ocorre quando o portador do documento morre. Jair Bolsonaro está sorridente ao lado do cartaz em uma foto tornada pública nos canais oficiais da Presidência da República.

A foto é absurda por um milhão de motivos. Vou destacar três.

O primeiro é o absoluto desrespeito de um chefe de Estado que posa para foto com uma mensagem como essa enquanto o Brasil atravessa o pior momento da pandemia de coronavírus (e toda semana dizemos que esse é o pior momento da pandemia e até agora não houve sequer uma declaração do presidente reconhecendo a seriedade da situação, mas isso é tema para outra coluna). Já são quase 400 mil mortes pela doença. Brasileiros estão morrendo em um ritmo assustador, que não parece perto de diminuir, e o presidente da República tira foto zombando a morte.

O segundo motivo é o que a expressão significa. CPF cancelado é uma gíria para se referir a pessoas mortas por policiais. Em um país em que a polícia mata mais de 5 mil pessoas por ano – em sua maioria negras e periféricas -, um presidente da República que fez campanha dizendo defender a segurança pública posar para uma foto como essa é de embrulhar o estômago. Mas a expressão vai além disso. O termo é usado por grupos de extermínio das milícias, no Rio de Janeiro, para comemorar o assassinato de seus adversários.

E eis aqui o terceiro motivo que torna o comportamento do presidente tão absurdo. Na política, palavras importam. E importam muito. No mesmo fim de semana em que Bolsonaro sorri ao lado de uma expressão usada pela milícia de seu estado natal, o site The Intercept Brasil publicou uma reportagem que mostra que, após a morte do miliciano Adriano da Nóbrega, colegas dele contataram o presidente. Segundo as transcrições, Ronaldo Cesar, o Grande, disse a uma mulher que ligaria para o “cara da casa de vidro”, uma referência ao Palácio Alvorada, residência oficial do presidente da República.

Estamos acostumados com a falta da tal liturgia do cargo. Esse termo foi cunhado para expressar o comportamento que se espera de ocupantes de altos postos, em especial na função pública, como é o caso do presidente da República. Ao ser perguntado sobre a foto, Bolsonaro chamou a jornalista que fez a pergunta de idiota.

Certamente é o que ele pensa sobre todos os brasileiros ao agir assim. Como eu disse, na política, palavras importam. Palavras, gestos, ações. Tudo conta. No Brasil, o chefe de Estado é fotografado correndo atrás de Emas com caixas de cloroquina (remédio sem eficácia científica que Bolsonaro insiste em defender para tratar Covid), coloca em dúvida a lisura do sistema eleitoral dia sim, dia não, ameaça um golpe de estado dia sim, outro também, ameaça declarar guerra aos Estados Unidos, e agora zomba da morte.

Bolsonaro acha tudo isso engraçado. Acha que isso agrada sua base eleitoral. A verdade é que Bolsonaro não tem graça e que o Brasil sente falta daquela tal liturgia.

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