POVO YANOMAMI E YE´KWANA REPUDIAM POSSÍVEL VISITA DE BOLSONARO A TERRA INDÍGENA

Em uma live transmitida no dia 29 de abril, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) anunciou sua intenção de visitar garimpos em terras indígenas e Pelotões de Fronteira do Exército na Amazônia, também situados em terras indígenas. Em carta divulgada nesta quinta-feira (6), o povo Yanomami e Ye’kwana repudiam uma possível agenda de visita do presidente às suas terras. 

“As lideranças e associações da Terra Indígena vêm a público informar que não queremos que Jair Bolsonaro venha conversar dentro do território, nem visitar garimpos. Queremos lembrar ao presidente que esses garimpos são ilegais e vão contra nossos direitos reconhecidos nos artigos 231 e 232 da Constituição Federal de 1988, e que os invasores deveriam ser retirados de todas as terras indígenas do Brasil”, diz um trecho da carta. 

Foto: Divulgação

As lideranças ficaram muito indignadas com essa possibilidade. Os “Povos Yanomamis e Ye’kwana estão muito revoltados, estamos muito bravos, porque nossa terra já está homologada pelo governo federal e, ainda assim, nossos direitos básicos para o bem viver e o dever do Estado brasileiro de proteção e fiscalização contra atividades ilegais não estão sendo respeitados”, dizem, ainda, as lideranças. 

A Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas (FPMDDPI) manifesta total incredulidade com a atitude do presidente da República, que se dispôs a visitar os garimpos ilegais que ele, como representante do Estado, deveria combater. Trata-se de mais um ataque aos povos indígenas e seus direitos, garantidos na Constituição Federal. 

As lideranças indígenas reforçam, ainda, que as decisões sobre as terras indígenas devem ser tomadas com a participação de todos. “Não aceitamos que o governo consulte só uma pessoa ou associação, nem que faça reuniões de consulta separando comunidades e regiões da nossa terra. Os assuntos que afetam toda a Terra Indígena Yanomami são decididos no Fórum de Lideranças”, dizem na carta. 

O documento é assinado por Júlio David Magalhães Rodrigues, presidente da Associação Wanasseduume Ye’kwana; Dário Vitório Kopenawa Yanomami, vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami; Érica Vilela Figueiredo, da Associação das Mulheres Yanomami Kumirayoma; José Mario Pereira, presidente da Associação Yanomami do Rio Cauaburis e Afluentes; e Marcio Hesina Yanomami, presidente da Hwenama Associação dos Povos Yanomami de Roraima. 

Contaminação por mercúrio

O povo Yanomami sofre com o problema da contaminação por mercúrio, causada pelo garimpo ilegal em suas terras. 

Em 2016, um estudo da Fiocruz, em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA) apontou a presença de altos níveis de mercúrio em habitantes da Terra Indígena Yanomami. O estudo foi realizado nas regiões de Papiú e Waikás, onde residem o povo Yanomami e Ye’kwana.

O caso mais alarmante foi o da comunidade Yanomami de Aracaçá, na região de Waikás, onde 92% do total das amostras apresentaram alto índice de contaminação. Esta comunidade, entre todas as pesquisadas, é a que tem o garimpo mais próximo. 

Um levantamento feito pela Hutukara Associação Yanomami (HAY) e a Associação Wanasseduume Ye`kwana (Seduume), publicado na quinta-feira (25) mostra que, de janeiro a dezembro de 2020, houve avanço de 30% do garimpo ilegal na terra indígena Yanomami.

“Vocês sabem que essa situação de garimpos ilegais em terras indígenas tem sido divulgada continuamente nos meios de comunicação colocando não somente a situação de vulnerabilidades sociais, mas também a questão ambiental, a questão do uso de mercúrio incontrolado, o desmatamento, cada vez mais avançando para dentro das terras indígenas”, disse a deputada federal Joenia Wapichana (REDE-RR), coordenadora da Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas em um discurso na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável sobre o tema. 

O garimpo já deixou marcas profundas no povo e no território Yanomami. Entre 1986 e 1990, estima-se que 20% da população (1.800 pessoas) morreu em função de doenças e violências causadas por milhares de garimpeiros que invadiram suas terras.

*Fonte: Frente Parlamentar Indígena

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