TUDO BEM SE VOCÊ QUISER DESISTIR AGORA

Hoje eu queria apenas dizer: eu odeio os novos tempos. Eu odeio falar “novos tempos” e a outra expressão que está na moda: o novo normal. Não tem nada de normal e seja lá o que for esse tal de “novo”, eu odeio. Odeio home office, odeio não conseguir estar com meus amigos, odeio não poder tomar chopp em boteco de mesinha de plástico ou sentada no meio fio, odeio não poder viajar, não poder abraçar estranhos na rua- sim, eu faço isso às vezes porque eu não enxergo bem sem óculos e confundo estranhos com pessoas conhecidas, mas isso é para outro texto. Hoje eu preciso dizer que o tal dos “novos tempos”, aos meus olhos, soa como algo arcaico. Porque não pode ser normal sermos obrigados a ficar encolhidos diante de uma tela de computador, achando que isso deve ser chamado de realidade. Achando que 18 horas diante de uma tela é NORMAL. As dores de cabeça, o cansaço dos olhos, as doenças psicossomáticas, as neuroses, as ansiedades, depressões, as crises de choro no banho… Nada disso deveria ser colocado numa lista de normalidades. A gente tá, sim, vivendo um momento histórico, mas mais que isso: está doente.

Eu sinto que muitas vezes o meu corpo reflete essas emoções em um olho com alergia, uma dor sem fundamento, essa coisa de comer até meu estômago doer. Eu sou compulsiva, é um inferno viver na minha cabeça que precisa de limites para não violentar meu corpo. E eu partilho aqui essas angústias que precisam de ansiolíticos e chá de ervas calmantes. Angústias que não são só minhas, são também de todas as pessoas com quem eu converso sobre isso. São dores nas costas, nas juntas, dores no estômago, dores na alma. Dores. O mundo está dolorido. A dor do mundo é generalizada, a gente não tem mais energia para quase nada. Cumprimos o básico da rotina porque não podemos morrer de fome, morrer de sede, morrer de qualquer coisa, porque estamos morrendo demais por tantos outros motivos. 

O mundo está em luto, todo o tempo. 

E quanto mais morrem as pessoas, morrem as esperanças. E, particularmente, eu acredito sinceramente que a maior violência contra um ser humano é quando tiram-lhe a esperança. E a gente vai mergulhando cada dia mais nesse abismo que é o não saber sobre o dia de amanhã. E, ainda que o novo normal seja relacionado diretamente com a pandemia, eu também penso que os tempos atuais- além pandemia- nos exigem uma certa tabela de coisas que a gente deve cumprir para ser digno de algum respeito. A gente precisa chegar nas nossas etárias batendo as metas, tendo conhecido determinados lugares, obrigatoriamente ter entendido “Cem anos de solidão” e fingir que indicaria esse livro para todo mundo. Mas a verdade é que eu gosto de ver “Casos de Família”, que expressa a sociedade real que me cerca. E tudo bem, Gabo que me perdoe, eu o amo, mas vamos por favor nos permitir sermos felizes vendo as pessoas batendo boca na televisão por causa do tuppewere que a cunhada não devolveu ou perdeu a tampa? Eu mereço. Só hoje.

E aí eu olho nas redes sociais os grandes incentivos das pessoas que na pandemia viraram muito muito muito zen, conseguem plantar bananeira, fazem 7km de corrida dentro de casa e postam: “não desista, é sempre difícil no começo, seja exemplo, persista”. E a vontade é de dizer: “olha, se você quiser desistir, tá tudo bem, ok? Ninguém é obrigado a se flagelar eternamente por sonhos que talvez sejam só utopia e que muitas vezes nos machucam mais do que nos realizam.” Porque, a gente precisa saber da hora de desistir também. Precisa entender que nem tudo a gente deve insistir até sangrar as mãos. Precisa aceitar que tudo bem não estar tão bem assim. Pode abrir mão, deixar para depois, deixar para lá. Tá tudo bem. Vamos aliviar as cargas, são tempos muito difíceis para quem só quer assumir que não está tão feliz assim e só precisa de um pouco de descanso e esperança.

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