É PROTAGONISMO FEMININO OU SÓ UMA PERMISSÃO MASCULINA?

Ultimamente vemos muitas campanhas que enaltecem o protagonismo feminino em setores que são estruturalmente masculinos, empresas de grande porte dizendo que valoriza o trabalho de suas funcionárias e abre espaço para que mulheres exerçam cargos de chefia, campanhas do tipo: salários iguais, oportunidade iguais. É quase um bálsamo na luta feminista no mercado de trabalho. A gente não podia pilotar aviões, não podia dirigir um caminhão, não tinha espaço nas áreas de pesquisa científicas e acadêmicas, não tinha liberdade de escolha em tantos setores que eu não preciso (e nem consigo) listar nessa coluna. O mercado de trabalho era direcionado, limitado, a gente sabe muito bem como era a coisa e como esse passado ainda respinga nos dias de hoje, ainda é uma pequena algema cravejada de diamantes que nos sufocam, assediam, diminuem e não nos valoriza. E sobre a área acadêmica, nem preciso falar muito, não é? Estudar para quê se você vai ser dona de casa? Simples e sintético.

O machismo que nos colocava em quadradinhos bem apertadinhos, com nossos deveres bem delineados, ainda é um monstro de dentes amarelos que engole nossas asas e tenta nos silenciar, matar, suprir suas necessidades. Ele se apresenta no salário desigual, se revela na falta de incentivo, nas universidades, nas escolhas públicas, nas opções de profissão que as meninas e os meninos aprendem dentro de suas casas. Outro dia ouvi de uma tia: menina não joga bolinha de gude! São os detalhes desse monstro que vão saindo nas falas machistas do dia-a-dia. Pequenas unhas sendo cravadas na auto estima e na confiança das crianças que, um dia, serão os próximos no mercado (e na vida).

E assim, os homens, esses seres iluminados e escolhidos, podem escolher fazer tudo, seguem conquistando suas coisas e dominando e seguindo e não sendo interrompidos em suas falas e sendo perdoados todos os dias por seus pecados.

Eles podem qualquer coisa. Zero obrigações e julgamentos sobre suas escolhas pessoais.

Tem filho e vai para o bar? Pode, você é homem.

Você tem filhos, mas vai viajar para seu doutorado e ficar fora dois anos? Pode, claro, você é homem.

Tem filhos e não consegue ficar com eles pelo menos de noite, depois do trabalho? Tudo bem, você é homem, você merece descansar.

Você é infiel? Ah, mas você é homem, né?

Você vive a sua sexualidade de maneira livre, sem se preocupar com a opinião alheia? Homem.

Você quer dominar o mundo? Claro, seja homem!

E aí, eu fui crescendo em uma casa com uma mulher muito forte. Protagonista. Minha avó, mesmo quando não levava os créditos de suas ações, estava fazendo as coisas acontecerem do jeito que ela achava melhor, ela conduzia a vida. Minha avó sempre destoou no meio das conversas, nas rodinhas do churrasco. Não teve as oportunidades de escolhas que eu tive, não conseguiu realizar alguns sonhos, foi esposa e mãe, pouco estudo, muita luta. Foi o mais livre que pode, dentro das amarras que a prendiam. E assim fomos indo. Minha avó dizia “se você quer ser livre, estude”. Estudei. “Se você quer ser livre, tenha seu próprio dinheiro”. Eu tenho. “Se você quer ser livre, nunca venda a sua liberdade para nada e nem ninguém”. Sigo tentando. Ela segue protagonizando.

E assim, em meio a busca de ser mais livre e obter mais autoconhecimento, em um dia de terapia marcada com um encaixe, minha terapeuta colocou essa pergunta que ficou pulando na minha mente hiperativa (e livre): até que ponto nós somos protagonistas por direito e até que ponto a gente protagoniza espaços que nos permitem? Foi uma pequena bomba na minha auto confiança (quem nem é tão grande assim). Os exemplos também são diversos, a gente é co-autora, co-pesquisadora, co-piloto, auxiliar, alguma coisa que vem depois de alguém que vem antes. Sempre tem alguém antes. É como se o protagonismo masculino abrisse um espacinho para as mulheres se sentirem um pouco mais importantes, mas não muito, só o suficiente para não fazermos muito barulho e nos tornarmos aquilo que eles gostam de nos chamar, como é mesmo? Ah, sim: histéricas.

São nossas falas interrompidas, nossa credibilidade sendo colocada em prova, são nossas denúncias minimizadas por olhares machistas- inclusive de outras mulheres. A gente protagoniza, mas alguma coisa sempre vai ter para não nos permitir sermos simplesmente respeitadas. Ela é uma boa deputada, mas olha esse cabelo. Ela é uma boa advogada, mas precisa de uma dieta. Ela é uma boa professora, pena que é estressada. Ela é uma excelente jornalista, pena que tem essas unhas sem esmalte. “Ela é” sempre seguido de “que pena que”.

Isso mostra como o machismo é um sinônimo de fraqueza. É frágil. Quando uma mulher se destaca, geralmente aparece algo para culpá-las por sua dedicação. No fundo, nunca vai ser o suficiente. Nunca vai ser livre de verdade. Eu fico me perguntando quantas mulheres exercem certos cargos, achando que estão em um lugar de conquista e mérito, mas na verdade estão sendo usadas como ferramenta de aceitação. Estão ali, em destaque, não somente porque é boa e mereceu aquele espaço, mas principalmente porque alguém deixou que ela entrasse. São mulheres incríveis, inteligentes, que exercem suas funções com maestria, mas que precisaram de uma permissão para estar no lugar que nasceram para estar. São as vices, são as “co”, as “segunda no comando”, “secretária de alguma coisa”. E não somente no mercado, mas também na vida. São as mulheres que obedecem a seus companheiros, que deixam que escolham por elas, que decidam por elas, que respondam por elas.

São tantos exemplos que eu não preciso (e nem consigo) listar nessa coluna.

E, por fim, a gente vê que é sempre coisa demais para ser dita. Coisa demais para ser explicada e entendida. Sempre tem exemplos demais para serem citados. Talvez seja por isso que as pessoas começam a fingir que não estão vendo, que a gente está exagerando. É tão comum, que passa quase despercebido. É um véu bem fino que fica nos olhos da gente e vamos, deslumbradas, achando que estamos livres e enfim chegamos aonde queríamos. É preciso estar sempre alerta (mais alerta, todo o tempo) e entender que há um longo e exaustivo caminho a ser percorrido.

 Será que eu estou aqui porque eu conquistei ou porque alguém me permitiu ocupar esse lugar? Vale sempre fazer essa pergunta. Vale também sempre lembrar que: a gente não precisa de permissão para nada.

Sigamos.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: