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A Marília Mendonça, o feminejo, o feminismo e a arte como reflexo do nosso tempo

A Marília Mendonça, o feminejo, o feminismo e a arte como reflexo do nosso tempo
Foto: Reprodução / Redes Sociais

Poucas coisas comoveram mais o Brasil do que trágica morte da cantora sertaneja Marília Mendonça, na última sexta-feira. Milhares de pessoas acompanharam comovidas o velório em Goiânia, celebrando tudo que Marília foi e lamentando tudo aquilo que ela ainda tinha para ser. Marília Mendonça, aos 26 anos, estava no auge de uma carreira meteórica. Teve a live mais assistida do mundo em plena pandemia. Sua morte foi repercussão internacional. E não é para menos. Marília nos deixa um legado e uma reflexão: nosso feminismo chega em quem precisa dele?

Marília Mendonça, junto com tantas excelentes artistas, ajudou a levar em frente e a popularizar a perspectiva feminina no segmento sertanejo – o ritmo mais ouvido no Brasil, apesar de alguns metidos a intelectuais se orgulharem de não ouvir, não gostar e sequer conhecer. Ela não criou o “feminejo”, já que muitas outras mulheres vieram antes dela, mas tem um papel fundamental na história desse movimento artístico.

A arte é um reflexo do nosso tempo. E Marília ajudou a começar a atualizar o sertanejo aos padrões de uma sociedade condizente com o século XXI. Ainda há muito o que ser feito, mas é inegável o papel que a cantora teve nesse movimento. E também é inegável como Marília tornou palatáveis bandeiras do movimento feminista.

O sertanejo é um ritmo popular no Brasil, que está na mente e na boca de milhões de brasileiros. E, infelizmente, é um ritmo que ainda naturaliza o machismo presente no dia a dia do país.

Exemplos não faltam. Tem de tudo.

Violência psicológica: “A mala é falsa amor/ Engole o choro, embora eu não vou/ Agora vê se aprende a dar valor/ Mata a minha sede de fazer amor”, de Felipe Araújo e a dupla Henrique & Juliano, com mais de 284 milhões de visualizações no Youtube.

Comportamento possessivo e agressivo: “Tô a fim de você/ E se não tiver, você vai ter que ficar/ Eu vim acabar com essa sua vidinha de balada/ E dar outro gosto pra essa sua boca de ressaca/ Vai namorar comigo, sim!/ Vai por mim, igual nós dois não tem/ Se reclamar, cê vai casar também”, de Henrique & Juliano.

Por falar em comportamento possessivo, que tal essa aqui? “Tá doido que eu vou / Fazer propaganda de você / Isso não é medo de te perder, amor / É pavor/ É minha, cuido mesmo, pronto e acabou”. Um oferecimento Jorge & Mateus.

Relacionamento abusivo? Temos também: “Tem uma câmera no canto do seu quarto / Um gravador de som dentro do carro / E não me leve a mal / Se eu destravar seu celular com a sua digital”, de Henrique & Diego.

Tem mais: ” Sua boca diz não quer / E meu ouvido diz duvido, duvido, duvido”, de Marcos & Belutti.

Isso só parando para uma análise rápida de músicas do tal “sertanejo universitário”, que é mais recente. Precisamos parar de ouvir esses artistas, crucificá-los em praça pública e boicotar patrocinadores? Claro que não. Mas já está mais do que na hora de mudar o teor do que é cantado por aí e Marília teve um papel fundamental para começar a mudar essa mentalidade.

Marília trouxe à música sertaneja a perspectiva da mulher que também bebe, que também trai e é traída, que também tem suas falhas e humanidade. Mais do que isso. A partir da voz de Marília, milhões de fãs começaram a ouvir coisas como:

Você não manda em mim
Eu sei aonde eu devo ir
Eu sei o que posso vestir
Se tudo o que eu faço de incomoda
Você sabe o caminho da porta
Se um dia eu mudar pra te agradar
Eu juro que eu troco o meu nome
Quer me ensinar a ser mulher
Primeiro aprende a ser homem

Você não manda em mim

Tem essa aqui também:

Ele tá fazendo de tapete o seu coração
Promete pra mim que dessa vez você vai falar não
De mulher pra mulher, supera

Supera

Tem mais:

Não sei o que você tava pensando
Me controlando e sufocando
Saiba, eu não nasci pra isso

Por mais três horas

Claro que Marília Mendonça não era perfeita. Ninguém está livre de ser machista em uma sociedade em que o machismo é estrutural. Mas é um começo. Marília ajudou a levar o feminismo para dentro da realidade de mulheres de carne e osso de todos os Brasis que nos habitam, e deve ser celebrada sempre por isso.

Se a arte é mesmo um reflexo do nosso tempo, as composições de Marília Mendonça nos dão um pouco de esperança de que os ventos podem começar a soprar a nosso favor.

Que seu legado encontre eco nas futuras gerações.

Kelli Kadanus

Kelli Kadanus, jornalista, cronista, tia coruja. Escrevo para tentar me entender e entender o mundo. É assim desde que aprendi a juntar sílabas. Sonho em mudar o mundo e as palavras são minha única arma disponível.

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