A MINHA LIBERDADE TE CAUSA MEDO

Você se assusta porque eu carrego o coração pela mão e saio mostrando-o aos estranhos, aos perdidos, aos desorientados e aos mendigos da rua. E se assusta porque a minha liberdade é como um cigarro apagando no final de uma conversa longa sobre o que o amor não é e sobre o que ele é, mas o Renato disse que ainda é cedo, quando nós já sabemos que é bem tarde. E você sente que a minha voz soa como vidro quebrando porque eu só gosto do que representa a dor e, por mais que eu nem saiba onde dói, eu me acostumei a me sentir sempre manca, exausta e sem sol. Você sente que meu eco é o vazio constante de um rasgar-me sem trégua, e sofre. Sofre genuinamente, com um espectador do meu grito, seco e duro, dentro de uma gaiola dourada e fria.

Mas não vai. Fica.

Você segura minhas mãos como se fosse possível me fazer parar de girar no ar, feito um balão de hélio que eu nunca ganhei na vida e espero ansiosamente desde o Natal de 96. E me aperta contra seu peito na necessidade crua de me colocar dentro de algum órgão seu, onde sua analista não me encontre e se conforme com a minha presença lucrativa de ser o conflito principal das suas batalhas. Você me arrasta pelos quatro cantos do mundo, sem dizer meu nome. E me recria nos mitos dos livros que você comprou há meses só para impressionar seus amigos cheios de doutorados e diplomas e camisas bem passadas, que não sabem nada sobre sentir. E eu continuo sendo mais uma anfitriã dos estranhos, dos perdidos, dos desorientados e dos mendigos da rua. Mostrando meu coração, feito um artesanato mal feito, em troca de qualquer trocado que o dê sentido.

E todos os textos e cada uma das cartas e cada um dos dias que você não leu, não recebeu e nem viu, se inflam de hélio numa tarde qualquer, dessas que ninguém irá lembrar no próximo calendário, e voam como balões dourados rumo ao infinito, levando minhas vontades, meus sonhos e meus planos que eu vim construindo desde 96 e nunca chegaram até mim. E toda vez que eu olho para o alto e vejo algum sinal anunciando ventanias de virada, tempestades longas e amores tardios, lembro que no céu não existem placas de PARE.

Tampouco existem elas dentro de mim.

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