AMAZÔNIA REGISTRA MAIOR NÚMERO DE FOCOS DE INCÊNDIO EM JUNHO DOS ÚLTIMOS 14 ANOS

Dados divulgados nesta quinta-feira (1), pelo Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (Inpe), apontam que o mês de junho registrou o maior número de focos de calor na Amazônia desde 2007, na comparação com o mesmo mês dos anos anteriores. Os satélites mostram que foram 2.308 focos de calor, o que representa um aumento de 2,6% em relação a junho de 2020, quando já havia sido batido o recorde histórico.

O aumento ocorre no momento em que o governo federal anuncia uma nova operação militar na região da Amazônia para tentar conter o aumento do número de focos de queimadas e do desmatamento. O anúncio foi feito no dia 11 de junho pelo vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB), que chefia o Conselho da Amazônia. Nesta semana, o governo decretou uma nova Garantia da Lei e da Ordem (GLO) na região, que vai durar dois meses e custará R$ 50 milhões.

Fonte: Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon)

“Infelizmente, esse recorde no mês de junho não é uma surpresa, considerando a continuidade da política antiambiental e a insistência na utilização de uma ferramenta cara como o envio de tropas militares, que se mostrou ineficiente nos últimos dois anos. Na verdade é mais uma estratégia para inglês ver, pois, além de ser por um período mais curto do que nos anos anteriores, o próprio decreto já avisa os desmatadores e grileiros onde irão fiscalizar nesse período”, comenta Rômulo Batista, porta-voz da campanha de Amazônia do Greenpeace Brasil.

A GLO na Amazônia começou em maio do ano passado, através da Operação Verde Brasil, e foi prorrogada três vezes. A operação custou um total de R$ 530 milhões. Servidores ambientais destacam que o valor representa 8 vezes o orçamento do Ibama para combater o crime ambiental no Brasil inteiro por um ano. 

Em nota, a Associação Nacional dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente (Ascema Nacional) critica a “militarização da proteção ambiental da Amazônia”. A Ascema destaca que, com o mesmo recurso empregado na Operação Verde Brasil “poderiam contratados 5 mil fiscais para o Ibama, que hoje conta apenas 500 fiscais para fazer a proteção ambiental de todo o território nacional, incluindo zona costeira”. 

Projetos antiambientais prejudicam Amazônia

Em nota, o Greenpeace chama a atenção para sinalizações vindas de Brasília que estimulam novos desmatamentos e invasões em terras públicas. “Exemplo disso são os Projetos de Lei 2633 e 510 que tramitam no Congresso e que visam flexibilizar os critérios da regularização fundiária, anistiando grileiros e estimulando novos desmatamentos. Outro exemplo são as propostas que visam abrir terras indígenas para atividades predatórias, como o PL 490”, diz a ONG.

Nesta semana, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara concluiu a votação do PL 490, que, na prática, inviabiliza a demarcação de terras indígenas no país, proíbe a ampliação de terras já demarcadas, permite ao governo federal retomar terras indígenas demarcadas há anos, além de escancarar as terras indígenas para empreendimentos predatórios, como garimpo, mineração e exploração de madeira.

“Para os próximos meses, o cenário dificilmente será diferente do que vimos nos últimos dois anos”, alerta o Greenpeace. “Com números altos de queimadas ainda no começo do verão amazônico, meses onde há uma diminuição natural das chuvas na Amazônia, esses números tendem a subir ainda mais”, diz a ONG.

O monitoramento de focos ativos do Programa Queimadas, do Inpe mostra que a Amazônia teve 1.166 focos de queimada em maio deste ano. O número é o maior para o mês de maio desde 2007, quando foram registrados 1.176 focos, e maior que a média para o mês, que é de 1.007. Maio também foi o mês de 2021 com maior registro de focos de queimadas até agora. No total, foram registrados 4.677 focos em 2021. 

Apesar do alto volume de recursos públicos utilizados na Operação Verde Brasil, os militares não conseguiram frear os focos de queimada. De maio a abril, período da operação, em quatro meses o número de focos foi maior em comparação com o mesmo mês do ano anterior. 

Em setembro, por exemplo, foram registrados 50.631 focos de queimadas na Amazônia, enquanto no mesmo mês de 2019 foram 32.602 registros. Em outubro de 2020, durante a vigência da operação., foram 24.007 focos de queimada, enquanto em outubro de 2019 haviam sido 11.848. 

Dados do MapBiomas Alerta também mostram um aumento no desmatamento da Amazônia em 2020. Segundo relatório divulgado nesta sexta-feira (11), foram identificados 58.946 alertas de desmatamento na região em 2020 – 99,9% deles com indícios de ilegalidades. Houve um aumento de 9% na área desmatada. O pico de desmatamentos na região da Amazônia ocorreu em julho, sob vigência da Operação Verde Brasil, quando foram desmatados 3,78 hectares. 

“Estamos vivendo uma emergência climática e a queima de florestas e outras vegetações nativas é a principal fonte brasileira de emissão de gases de efeito estufa que agravam ainda mais essa crise”, diz o Greenpeace. “Outro reflexo dos desmatamentos e queimadas que todos já estamos sentindo é a alteração do regime de chuvas. Os reservatórios para geração de energia e até mesmo para captação de água para consumo humano encontram-se em níveis historicamente baixos, causando risco de racionamento e aumento na conta de energia e no preço dos alimentos por perda de produção”, diz a ONG, em nota.

“Estamos vivendo um momento muito triste para a floresta e seus povos. Eles estão sendo atacados por todos os lados, seja pelos desmatadores, grileiros, madeireiros e garimpeiros que avançam sobre a floresta ou territórios, seja por meio do Congresso e do Poder Executivo que, não só não combatem esses crimes e danos ambientais, como os estimulam, seja por atos ou omissões”, conclui Rômulo.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: