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Assassinos demoraram dez minutos para ver Moïse como humano

Assassinos demoraram dez minutos para ver Moïse como humano
Moise Mugenyi Kabagambe foi espancado até a morte na Barra da Tijuca

Dez minutos. Este foi o tempo em que demorou para que os assassinos de Moïse Kabagambe percebessem que tinham tirado a vida de um ser humano. Foi somente depois da morte do rapaz preto, que agonizou por 600 segundos, é que os criminosos tentaram reanima-lo.

A esta altura do campeonato você certamente ouviu falar da morte de Moïse Kabagambe, o homem oriundo do Congo que foi brutamente assassinado em um quiosque na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. O crime tem causado revolta nas redes sociais, como não poderia ser diferente. Na madrugada da última terça-feira (01) três homens foram presos, acusados de participarem das agressões que resultaram na morte. Eles deverão responder por homicídio duplamente qualificado, impossibilidade de defesa e meio cruel.

O homicídio duplamente qualificado é assim categorizado quando qualificadoras são acrescentadas ao crime, como motivo torpe ou uso de armas.

Na busca de conseguir atenuantes em possíveis penas, Alisson Cristiano Alves de Oliveira assumiu em um vídeo a participação no crime, mas afirma que espancou sem a intenção de matar e justifica que estava tentando defender o senhor que estava na barraca. “Quero deixar aqui bem claro que nunca foi minha intenção tirar a vida dele. Eu não fiz isso porque ele era negro ou alguém (inaudível), não. Ele teve um problema com um senhor do Quiosque do Lago, entendeu? Aí quando eu fui defender o senhor aconteceu a fatalidade em que ele perdeu a vida. Tanto que eu liguei pro Samu. O rapaz que também estava envolvido tentou prestar socorro a ele fazendo massagem cardíaca”, diz Alisson.

Eu não irei reproduzir o vídeo do assassinato nesta coluna, por acreditar que a memória da vítima merece ser preservada. Mas analisei o vídeo e nele é possível perceber que em determinado momento Moïse não apresenta mais resistência e ainda assim segue sendo espancado com golpes de madeira na cabeça. Os assassinos chegaram a fazer pequenos intervalos entre uma sequencia de golpes e outra, o que passa a impressão de que queriam ter certeza que o angolano estava desmaiado ou morto.

A pergunta que não quer calar é: isso teria acontecido se Moïse fosse branco? Duvido. O que vemos nas imagens é a desumanização do corpo negro. No momento em que o congolês está desacordado no chão, os homens observam e voltam a desferir golpes. É como se eles não enxergassem um ser humano ali ou nem se quer enxergasse um ser passível de sentir dor.

Demorou 10 minutos para eles perceberem que tiraram uma vida. Foram 600 segundos para notarem que aquele corpo negro era uma pessoa. Foram 10 minutos até tentarem reanima-lo. Se isso não é desumanização do corpo negro, eu não sei mais de nada nessa vida.

Demorou mais para Moïse ser visto como ser humano, do que para você ler esta coluna.

Erick Mota

Jornalista com passagem em grandes veículos de comunicação, como RICTV Record, Gazeta do Povo e Congresso em Foco. Foi repórter de rede da Band e Bandnews TV e rádio BandNews FM, em Brasília. Fundador do Regra dos Terços.

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