All posts by Ronald Galdino

25 sp, guitarrista gravando seu primeiro ep autoral, escritor, licenciado em música e amante de fotografia, poesia e cinema.

Só mais dez minutos

Não existe crise existencial mais conhecida que a crise dos dez minutos. Aquela que se alimenta das suas energias no tempo preenchido pela soneca entre o primeiro alarme de manhã e o segundo, terceiro, quarto. Você desperta mais cansado que quando foi deitar, aparentemente. Seu nome, seu trabalho, sua vida… tudo parece ter menos significado que tatuagem brega de adolescente, e a única coisa que a sua consciência espera de você é uma decisão muito simples: Levantar ou dormir mais dez minutos?! Quem nunca acordou e ficou sentado na beira da cama tentando recuperar a memória que atire a primeira pedra.

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Varrido pela Autoridade

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 Uma das coisas que eu menos gosto de fazer na vida é, sem dúvida, varrer o quintal. Durante as semanas uma camada de poeira vai se formando sobre o chão e em algumas épocas do ano dá pra colher um saco de folhas secas que caem das árvores dos vizinhos. Não que eu seja preguiçoso ou relaxado, mas, na falta de adjetivo, prefiro me classificar como inabilidoso, se é que preciso me classificar como algo.

 Varrer o quintal é uma tarefa muito difícil pra mim. Preciso identificar a direção do vento e prossigo escolhendo o ponto de onde vou partir. A vassoura, normalmente velha e desgastada, dificulta o trabalho em algum grau e, depois de começar, demoro um tempo razoável até terminar, meus pés ficam pretos e eu quero um banho. Admiro quem faz isso rotineiramente.

 Apesar das minhas justificativas para procrastinar, existe um ser humano capaz de me tirar desse estado de inércia, bastando uma palavra para eu me mover e executar essa tarefa com amor sem requerer nada em troca: minha mãe.

 

 No trabalho, minha mãe lida com jovens menores da periferia de uma das cidades da Grande São Paulo, vários deles ex-detentos que intimidam a diretoria, coordenação e corpo docente da escola em que ela trabalha. Sua principal função é orientar esses jovens a se comportarem de forma adequada, garantindo o bom funcionamento da instituição, só que para isso ela não possui poder e não há o que fazer caso ninguém a obedeça. Mesmo assim minha mãe volta pra casa todos os dias com ar de missão cumprida cheia de novas crônicas pra me contar.

 

 Se eu me recusasse a varrer o quintal certamente ficaria de castigo ou levaria uma bronca. Mas por que jovens que não tem nenhum vínculo com a minha mãe, a obedecem mesmo ela não possuindo nenhum poder sobre eles?

 A resposta está em: autoridade.

 

 Para o filósofo e sociólogo alemão Max Weber, a autoridade é a capacidade de influenciar as pessoas a fazerem, por vontade própria, o que você precisa, enquanto poder é forçar, exigir, coagir.

 Várias personalidades históricas são exemplos de pessoas com pouco ou nenhum poder mas que, por meio da autoridade, lideraram movimentos sociais que mudaram o mundo. Como: Mahatma Gandhi, Martin Luther King, Madre Teresa de Calcutá, Jesus Cristo, Nelson Mandela e outros.

 Enquanto o poder é associado normalmente a um cargo, a autoridade é definida como uma característica comportamental própria da pessoa, pois envolve uma submissão voluntária, e independe de posição social, econômica ou política.

 

 Isso pode nos levar a outra pergunta: como se conquista a autoridade? Eu poderia dissertar sobre isso em mais alguns parágrafos, mas, inconvenientemente, tenho que varrer o quintal agora.

A arte de ler o prefácio

 Levei cinco anos para terminar de ler Dom Casmurro, clássico escrito por Machado de Assis, publicado em 1899 e considerado um dos livros mais fundamentais da literatura brasileira. Durante esse tempo tentei várias vezes fazer a leitura completa, visto a importância da obra, mas, por capricho, sempre desisti em qualquer capítulo.

 Meu primeiro contato com Dom Casmurro foi através de uma adaptação para a televisão intitulada Capitu, e só no ano seguinte fui apresentado ao livro nas aulas de literatura do ensino médio. Na história o protagonista e narrador, Bento Santiago, faz relatos desde sua mocidade até os dias em que está escrevendo o livro, passando pela sua vida no seminário e seu caso com Capitu, mas a trama principal da narração resulta do ciúme doentio em seu relacionamento.

 Nunca entendi muito bem porque ciúme, adultério e tragédia faziam aquela obra tão aclamada, até que certa vez, em mais uma de minhas tentativas de concluir a leitura, comecei pelo prefácio, discurso preliminar que expõe o motivo da obra e processos seguidos por ela, e dessa vez fui até o final.

 

 Apesar do meu descaso com a literatura eu quase sempre fui próximo das artes, já que aos os onze anos de idade passei a estudar no Conservatório Municipal de Arte da minha cidade. Frequentemente vou em museus, teatros e concertos, mas, ao contrário de mim, isso não é comum entre meus amigos, fato que eu sempre tentei entender e só consegui durante a faculdade.

 A arte, manifestação humana de ordem estética, acontece por meio de várias linguagens, como: arquitetura, escultura, pintura, dança, música, poesia e cinema (Manifesto das Sete Artes), através das quais são expressadas ideias e emoções de significado singular pra cada obra.

 A linguagem artística, assim como a linguagem verbal, possui um aspecto dinâmico e, mesmo obedecendo a certos princípios organizacionais, suas convenções variam conforme momento histórico e espaço social. Dado que, como meio de expressão, a arte dá forma às vivências humanas, conhecer seus códigos formais: gêneros, estilos, técnicas, temas, contexto, é o que possibilita sua compreensão de forma consciente.

 

 Depois de conhecer as influências literárias que levaram Machado de Assis a escrever Dom Casmurro, sua intertextualidade com Otelo de Shakespeare e o contexto histórico sobre o qual a obra foi construída, eu possuía as referências necessárias que me permitiram compreender a obra em sua totalidade e entender que sua composição não estava baseada em ciúme, adultério ou tragédia e sim em ironia, ceticismo e ambiguidade.

 Em suma, a capacidade de interpretação que um indivíduo possui a respeito dessa linguagem está diretamente relacionada ao domínio que se detém das referências necessárias à sua apreensão, e ainda que as práticas culturais populares sejam uma das principais fontes de familiarização da cultura, para muitas produções será necessário ler o prefácio.